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“RIO VERMELHO” – Celofane

dezembro 15, 2010

Nas últimas semanas os brasileiros, e principalmente os cariocas, se assustaram com a onda de crimes ocorridos na cidade maravilhosa. Com o intuito de desestabilizar as estratégias de pacificação adotadas pelo atual comando das corporações policiais, bandidos de uma determinada facção criminosa, infiltrada em diversas comunidades, cometeram atos, ditos, terroristas contra a população, assaltando, promovendo arrastões e, principalmente, incendiando veículos particulares e ônibus de transporte público.

Entretanto a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro juntou esforços, fechou parcerias, desenhou novas estratégias e implantou medidas para dificultar a ação dos criminosos. Essas medidas formam a política de segurança adotada pelas autoridades cariocas, que aliada a uma ação operacional brusca e violenta ao “coração” do problema proporcionou às forças policiais um rápido êxito nas ações, prendendo criminosos, neutralizando futuros ataques e apreendendo armas e drogas. Embora a guerra ainda esteja longe do fim, algumas batalhas já foram vencidas e repensar quais foram as principais medidas implantadas e o que elas podem representar neste conflito não deixa de ser um bom exercício. Vamos tentar.

Uma das principais medidas adotadas e que chamou bastante atenção foi a transferência dos presos associados especificamente a esta onda de crimes no Rio para presídios de segurança nacional para assim serem encaminhados a outros estados. Estrategistas negociaram esta medida, encaminhada ao governo nacional, imaginando que a distância dos criminosos de suas facções fizesse com que as futuras lideranças esgotassem seu interesse pelo encarcerado e que com a distância ficassem limitadas as visitas em geral, limitando também o acesso do bandido às informações de sua quadrilha.

Não é difícil imaginarmos que as polícias passaram a entender que a família do criminoso é responsável por boa parte do seu equilíbrio emocional. Pensando assim, outra medida que ataca principalmente os parentes é a medida que prevê como crime de cumplicidade e até mesmo formação de quadrilha, familiares que estivessem vivendo às custas do dinheiro proveniente do crime e, portanto, ilegal. Esposas, pais e mães foram presos em suas residências comprovadamente vivendo com uma renda que não condiz com o patrimônio que ostentam.

As famílias, no entanto, não foram os únicos alvos do contra-ataque das políticas de seguranças. Advogados que comprovadamente colaboravam de forma ilícita com seus clientes trazendo informação, objetos não permitidos, entre outras irregularidades, também foram presos e serão submetidos à investigação e julgamento para os órgãos responsáveis averiguarem se responderão em liberdade, serão privados dela ou se somente serão impedidos de realizarem atividades relacionadas à sua profissão. Vale lembrar que o Brasil ainda permite ao preso o benefício de ser reunir com seu advogado sem a presença de qualquer agente policial.

O que mais tem se tornado visível, por motivos óbvios, é o uso ostensivo dos veículos de comunicação na cobertura dos fatos. E se avaliarmos detalhadamente é possível enxergarmos que também se trata de uma medida política adotada pelos estrategistas da segurança do Estado. A postura correta do policial, associada a transparência das ações realizadas por ele e contra os responsáveis pelos crimes que aterrorizam os diversos cantos da cidade, faz com que a polícia e todos os envolvidos recebam um importante reforço: o apoio da população. São eles, os membros da comunidade local, que enxergam, traduzem e denunciam as atividades ilegais e seus realizadores. Com o apoio incondicional deste importante personagem, o poder de neutralização da polícia se potencializa e muito das pequenas vitórias até o momento se deve a adoção desta medida.

Ainda é cedo para mensurarmos a importância de todas essas medidas interligadas e seus desdobramentos, mas é possível observarmos as pequenas e significantes vitórias. Será ainda preciso realizar uma longa caminhada. Como um primeiro, no entanto, este passo foi bastante relevante, mas é preciso continuar caminhando. Um recuo agora, com boa parte das facções ainda com poder bélico significante, poderia desencadear uma represália de grandes proporções à população carioca. Torcemos apenas para que esta atitude pró-ativa das polícias também seja uma das medidas adotadas.

Daniel Lopes

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“IGREJA” – Construção do Indivíduo / Cap. III

fevereiro 25, 2010

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte aqui.

Não existem dados concretos para o despertar da religiosidade no homem. Ao que parece ela está presente desde o inicio das formações sociais e há os que acreditam que o homem de Neanderthal já cultuava determinados animais e acreditava na vida após a morte. Esta linha de raciocínio defende que as primeiras crenças se estabeleceram pelo culto aos antepassados e que antigos Xamãs, surgidos há mais de 50 mil anos, foram determinantes para que a relação entre os dois mundos se fortalecesse.

Com o passar dos anos, décadas, séculos e milênios esta relação se institucionalizou. Com o desenvolvimento do raciocínio, a formação da fala a partir de símbolos sonoros e, posteriormente, a formação da escrita, o homem fincou pilares de perpetuação do conhecimento. A chamada memória coletiva, junção da memória individual por agrupamentos sociais, base da identidade cultural, disseminou o conhecimento espiritual como culto a saúde e cura de doenças da alma. A religião marcou os primeiros passos da medicina, bem representado em seu símbolo pelo cajado de Asclépio, deus da medicina, filho de Apolo com Coronis, envolvido por uma serpente. Os romanos acreditavam que o animal representava o poder dos deuses, pois circulavam livremente pelos templos e seus imortais.

A relação com o sobrenatural ganhou traços de divindade e logo graus de superioridade e conhecimento sobre-humano. Todo knowleged religioso passou a ter status de proximidade a Deus e, portanto, absoluto. Deus se fundamentou na fé que se fundamentou em Deus. Valores rito-religiosos se fundiram ainda mais aos valores culturais, isto é, na construção do individuo a formação religiosa passou a condição fundamental.

Dos cultos nasceram os templos e dos templos os cultos ganharam padronização. A formação do individuo religioso ganhou aspectos formais e concretos. Os agrupamentos se fortaleceram e se fundamentaram gerando vínculos sócio-ideológicos. O individuo passou a ser iniciado aos hábitos religiosos tão logo adquirisse uma formação mínima de discernimento, absorvida na escola e precedida pela família.

De alguma forma a religião sempre esteve relacionada a costumes e tradições inerentes a formação cultural. Por este motivo diferentes crenças, com diferentes cultos e ritos se estabeleceram até mesmo entre agrupamentos de uma mesma nação. Os templos ajudaram a legitimar a religião como instituição quando estes adquiriram aspectos de antigas ágoras, onde o espaço público assumia o caráter de comunhão, politização, pertencimento e formação intelectual. Historicamente, a religião esteve presente entre os principais aspectos motivadores de conflitos e guerrilhas, mas ainda é uma das principais vigas de sustentação da tolerância, respeito aos valores individuais e harmonização social.

Símbolos e passagens históricas foram associados às crenças e hoje a religião tem o papel de fundamentar o individuo a valores culturais que até então este só reproduzia. Hoje os ritos vão muito além, quando desassociam a matéria e ensaiam o consenso e o comportamento comunitário. É na formação religiosa que o individuo perde os valores da matéria para adquirir os valores da alma, mas principalmente prepara para regras e leis que estão acima dos valores do homem, pois fundamentam a existência deste.

Daniel Lopes

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“ESCOLA” – Construção do Indivíduo / Cap. II

julho 20, 2008

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte aqui.

Nos dias atuais é possível afirmar que a instituição escola se apresenta como um segundo passo na construção do indivíduo, precedido apenas pela família. Historicamente, o homem desenvolveu diferentes tipos de ensinamentos até chegar ao modelo atual, mesmo este não sendo, para alguns, o ideal e muito menos estabelecido pelo mesmo padrão em todos os cantos do mundo. Ainda na antiguidade toda a forma de ensinamento se concentrava nos encargos da família. Na Idade Média, no entanto, passou a ser entendida de uma outra forma e os filhos de pessoas com posses passaram a ter seus próprios mestres particulares. Só a partir da segunda metade do século XVIII a educação ganhou os traços do rascunho que hoje conhecemos por escola.

O homem é um animal sujeito a relações sociais que envolvem questões dialéticas e históricas, das quais a política, a econômica, a cultura, a ciência, entre outras vertentes, dão continuidade ao processo de evolução da espécie. Há quem observe que o homem é de natureza social e que tudo que o humaniza é resultado da vida em sociedade. Por este motivo, uma das características fundamentais da instituição escola é a submissão do indivíduo ao processo de interação social. É na escola que a criança tem o primeiro contato com a sociedade por intermédio do convívio e do vínculo estabelecido na reunião com outros membros que constituem a sociedade.

É possível entender os processos básicos da estrutura educacional atual se estudarmos seu contexto. Nos primeiros anos de vida, por exemplo, o ser humano não é fraco apenas fisicamente, mas também psicologicamente e por esta razão, na escola, as crianças são subdivididas por idade, evitando que o convívio com crianças mais velhas possa causar traumas relacionados à questão da inferioridade. Outra questão importante que diz respeito a divisão em turmas e turnos escolares é que faixas etárias diferentes desenvolvem interesses diferentes, o que influencia diretamente na capacidade de absorção do conteúdo proposto.

Com a inserção do relógio, no cumprimento do horário, a criança começa a desenvolver o sentido de compromisso. Hora de acordar, de entrar na escola, de iniciar os estudos, de realizar sua merenda, de recrear, de retomar os estudos, de voltar pra casa, até que o dia se finda com a hora de dormir. A imposição da criança aos horários é o início do processo de docilização disciplinar do indivíduo, isto é, o processo em que os corpos se tornam mais produtivos e adaptados ao tempo e ao espaço da sociedade contemporânea, segundo Michel Foucault. O compromisso com o correto cumprimento dos horários desenvolve na criança o senso de responsabilidade e os limites estabelecidos por tal concepção passam a atuar definitivamente na vida do indivíduo.

Não é à toa também que as escolas fundamentam a utilização de uniformes por seus alunos e, em muitos casos, também seus funcionários. Como o nome já diz, o uso do uniforme evita que as diferenças se tornem agressivas, principalmente quando tais diferenças envolvem classes sociais e econômicas. Muitas escolas proíbem inclusive a utilização de jóias, peças de roupas adicionais e até maquiagem, como complemento à norma que estabelece igualdade entre as classes. O uniforme exerce na criança um sentido de pertencimento e auxilia na correta concepção do espaço ocupado pelo individuo na escola e, portanto, na sociedade. O uniforme estabelece uma única forma, acusando os que são iguais e pertencentes ao mesmo grupo, bem como os que não são e não pertencem.

Na escola se inicia o processo de desenvolvimento da memória coletiva, crucial na manutenção da identidade cultural a partir da junção da memória individual compartilhada na escola por seus corpos docentes e discentes. Tal processo não apenas impede que valores e costumes culturais se percam, como também permite que a sociedade permaneça em desenvolvimento. Na escola também se estabelece o sentido de autoridade, atribuída ao professor, ao inspetor, ao coordenador, entre outros, que faz com que a criança comece a entender que não só a seus pais deve respeito. A escola, enquanto provedora de limites, de interação social, de responsabilidades, de inclusão social, é, portanto, muito mais que uma instituição que ensina Matemática ou Português, mas uma instituição essencial na construção do indivíduo civilizado e contemporâneo.

Daniel Lopes

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“A FÉ E O TEMPO” – Celofane

abril 29, 2008

Existe uma premissa aos religiosos que se resume em uma simples frase: “o senhor é meu pastor e nada me faltará”. Outras bem similares também podem ser citadas para representar a mesma idéia: “Deus é pai, não é padrasto”. Ou mesmo “tudo posso naquele que me fortalece”. Como estas, outras várias frases feitas representam a mesma crença, mesmo que não façam parte da mesma fé. Todas explicitam claramente que Deus, sendo ele quem for, sempre estará olhando por nós, se fizermos bem nosso dever de casa, claro.

Aos que não possuem fé ou possuem, mas não em todas as horas ou, pior, os que sequer acreditam num plano metafísico, o físico plano dos números e sua simples contagem do tempo, consolida sua crença e a exigência de uma figura fiel às virtudes do homem, passam a ser do racional senhor tempo. É no tempo que essas pessoas acreditam e, para elas, ele esclarece todo o equívoco que o homem criou, cura todas as enfermidades, derruba todas as máscaras e fundamenta tudo o que foi simplesmente especulado. O ex-presidente Fernando Collor de Melo, ao utilizar-se de tal raciocínio, disse certa feita: “o tempo é o senhor da razão”. Será?

Nem sempre, no entanto, a fé e o tempo estão dissociados, pelo contrário, a maior parte das pessoas lida com as duas vertentes como se fossem derivados de um mesmo primitivo. E por que não? No entanto, é preciso ter cautela. Para alguns, esta é uma boa oportunidade para fazer… nada! A idéia de abster-se parece boa. Não é o caso de todos, claro. Todavia é preciso ter cuidado porque muitas pessoas não são, mas passam a se acomodar, sem que percebam e quando se dão conta, deixaram de ajudar muitas gente, deixaram de aproveitar os momentos com a família, deixaram de produzir, deixaram de deixar para a prosperidade algo que orgulhasse seus amigos e, principalmente, deixaram de cuidar de si. Não se deram conta que os vinte poucos anos passaram e “estar em forma” e “com saúde” não parecem mais fazer parte do leque de frases, não menos feitas, ouvidas na rua.

Faz-se necessário uma outra observação. Algumas coisas não são exatamente o que parecem. Tanto as pessoas que se baseiam na fé, quanto as pessoas que se orientam pelo tempo, bem como as pessoas que lidam com os dois, precisam estudar bem seus princípios. Não parece razoável o ser humano “cobrar” que Deus tome partido de sua causa ou esperar ganhar algo em troca de uma boa ação, o que também não deixa de ser uma cobrança, mesmo porque, assim como o sentido de tempo para Deus não é igual ao mesmo para homem, os sentidos de justiça e razão também não os são.

Por outro lado, não significa que “cobrar” do tempo seja melhor resposta. É preciso entender que o tempo não esclarece “verdades” e sim as fundamenta, ou seja, o que o tempo especula, por intermédio do futuro, realiza, por intermédio do presente, e perpetua, por intermédio do passado, é a verdade idealizada pelo indivíduo e convencionada pelo coletivo. É preciso entender que o tempo detém a dita verdade, o que não quer dizer, primeiro, que seja a verdade que você espera e, segundo, que esta verdade apareça. Assim como ela, a dita verdade, pode aparecer daqui a dois minutos, pode também aparecer daqui a dois mil anos ou, simplesmente, nunca. Não parece claro que o tempo é realmente o senhor da razão?

Daniel Lopes

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Mais um anjinho no céu.

abril 24, 2008

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“FAMÍLIA” – Construção do Indivíduo / Cap. I

fevereiro 12, 2008

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte Aqui.

No decorrer da existência da humanidade, a formação dos agrupamentos sociais desencadeou o surgimento de determinadas estruturas que se inseriram e se fundamentaram, exatamente, pela necessidade do ser humano de viver em grupo. As chamadas instituições – assim denominadas por instituírem leis e normas que se estabelecem em caráter social – formam a estrutura básica da sociedade. Esta estrutura é responsável pela formação intelectual e cultural do indivíduo, que é responsável pela formação de costumes e tradições de uma comunidade, que por sua vez é responsável pela formação da identidade cultural de uma determinada sociedade.

O ser humano é notadamente uns dos animais mais frágeis nos períodos que precedem a idade adulta. Proporcionalmente à expectativa de vida, a infância do homem é bem extensa e durante este período o ser humano está completamente vulnerável. Somente perto de seus dois anos o homem começa a desenvolver a capacidade de se alimentar sozinho, por exemplo, necessidade básica para sua sobrevivência, mas a verdadeira busca pelo alimento, a caça ou a coleta, ainda estão bem distantes nesta fase. Entretanto, não muito diferente dos outros animais, o ser humano necessita de uma estrutura que forneça uma proteção enquanto sua cria não é capaz de se defender e sobreviver com seus próprios meios. A família enquanto instituição de afeto, espaço privado e manutenção do patrimônio, se encarrega desta função.

A instituição família é, a priori, responsável por salvaguardar sua cria, não apenas alimentando-a, como também, protegendo-a de possíveis males externos, danos à saúde ou mesmo predadores de sua espécie. A segurança da família deve possibilitar que o, então, indefeso ser se desenvolva e desenvolva habilidades que futuramente possibilitem gerar segurança às suas próprias crias. Particularmente no ser humano, este sentido de proteção é tão arraigado que mesmo na fase adulta, o homem se sente mais seguro no leito de sua família. Em todo o reino animal é possível perceber o instinto de proteção comum aos laços de família. É na família que nos apoiamos.

Outra importante responsabilidade da família enquanto instituição é a formação do sentido de afeto. Nesta fase, a partir da sensação de aceitação do filho e cuidado dos pais, o homem desenvolve o sentido de afeto por coisas e pessoas. A incondicionalidade dos pais frente às necessidades de seu filho é a construção e o fortalecimento deste afeto, que ganha proporções à medida que ele envelhece. Com o passar dos anos o afeto é responsável pelo desencadear do respeito ao próximo, a possibilidade de uma disciplina social e a formação dos interesses, que servirão para pontuar prioridades e traçar objetivos no futuro. São comuns traumas de infância no leito da família gerarem distúrbios responsáveis pela construção de um ser humano perigoso para o convívio social. É na família que nos humanizamos.

A instituição família é responsável também pela formação do sentido de patrimônio, muito mais no sentido de construção de caráter, que no sentido material. Como primeira instituição pedagógica, a família desenvolve o sentido de patrimônio em sua cria, e nela própria se fomenta. O bem maior do ser parte dela e nela se constrói. Não há interesse que se sobreponha aos valores da família, quando na construção do diálogo há uma correta comunhão entre comunicação e educação no leito da família. O patrimônio é a formação do caráter, que se constrói na referência da cria em seus criadores. Isto é, o filho que quer ser como o pai, pelo respeito e afeto que tem por ele. É na família que nos espelhamos.

A família não é a única responsável pela formação do indivíduo, mas é a primeira. É aquela que constrói alguém que continuará se reconstruindo. O desenvolvimento humano necessita de uma evolução cadenciada, onde a cada etapa superada uma nova é alcançada. E quem não tem esta etapa? E quem não tem uma família? Como se sentir seguro sem a segurança da família? Como sentir afeto sem o afeto da família? Como construir um caráter sem referência de caráter? É preciso pensar que uma sociedade sem esses casos, ou não pensar em sociedade. Como um grande quebra-cabeça de apenas duas peças: pais querem e não podem ter filhos; filhos órfãos e abandonados precisam e não podem ter pais. É tudo muito simples e nós dificultamos.

Daniel Lopes

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“PASSADO” – Desconstrução

outubro 31, 2007

O passado não existe. Existiu.

O que é o passado senão um período onde são armazenados todos os tipos de experiências individuais ou coletivas, adquiridas pela interação com o outro, somadas às ações e reações, atitudes e sensações desempenhadas e desenvolvidas? Ou seja, tudo, exatamente tudo, que foi vivido – entenda-se vivenciado, assistido e pressentido – forma hoje um histórico/perfil de uma pessoa ou grupo; forma, portanto, sua identidade. Logo, todos vivemos do passado, pois é dele que somos constituídos.

Tudo que uma pessoa vive é guardado nesta caixa-arquivo e por ela se manifesta através da memória, que está diretamente relacionada à formação e perpetuação da cultura, costumes e tradições. O que hoje se faz pretérito não deve ser menosprezado, já que se mostra muito importante no que se refere a desenvolvimento. È por intermédio de experiências anteriores que somos capazes de reconhecer, por exemplo, o que é bom ou ruim, o que causa dor ou prazer, o que mata ou o que diverte antes que seja preciso reviver tais situações. O passado é tão importante que mesmo os animais irracionais desenvolvem a memória como mecanismo de defesa, para resgatar não apenas sensações físicas como também costumes e tradições em benefício da perpetuidade da espécie.

Mas o passado também possui uma curiosidade. Ele, ao contrário de qualquer outro período, é eterno. Mais que isso, ele nunca termina. Tudo o que já se encontra no passado recebe diariamente complementos, continuações e subscrições. Raramente fatos inéditos, mas freqüentemente correções. Houve um tempo em que a tuberculose não tinha cura, por exemplo, mas o desenvolvimento e a continuidade de experiências acumuladas e compartilhadas em relação à doença e seu antídoto, possibilitam hoje uma informação diferente. Logo, o passado, que cresce pra frente, recebe diariamente alterações, o que faz com que um passado remoto não tenha a mesma resposta que o passado de ontem.

Não por acaso, algumas especialidades se empenham na função de reconstrução do passado. São museólogos, biógrafos, historiadores e diferentes pesquisadores, sem subtrair os professores, que nada mais são que pessoas, de primeira importância, que proliferam e perpetuam ensinamentos adquiridos no passado. Profissionais, cada qual em seu ramo, com o comum intuito de resgatar informações passadas que possam ser úteis nos dias atuais para soluções futuras. Sem o passado estaríamos condenados a caminhar em círculos, revivendo situações um sem-números de vezes e impossibilitando que ultrapassássemos, intelectualmente, a chamada idade primitiva. O passado está, portanto, sempre em evidência e é situação sine qua non para que a humanidade caminhe adiante.

O passado é eterno, mutável e referência para novos caminhos.

Daniel Lopes

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"PRESENTE" – Desconstrução

setembro 23, 2007

Ok. O presente existe. Mas quanto?

Se existe algo mais rápido que a velocidade do pensamento é o presente. Sua existência é tão insignificante que a língua portuguesa se nega a entende-lo por completo. Tente, por exemplo, conjugar a primeira pessoa do presente do singular do verbo ir. Eu vou? Parece engraçado, mas o presente é tão passageiro que utilizamo-nos de subterfúgios para estendê-lo. Presente não é o que você acabou de fazer, assistiu agora há pouco ou vai acontecer já, já. Presente é a parte mais estreita da ampulheta. A melhor das definições.

Por este raciocínio pensar no presente é não pensar no presente; é pensar no futuro ou no passado, não no presente. A duração do presente é infinitamente menor que o pensamento. Se permita por um instante pensar nele. Aliás, guarde a palavra “instante” na sua cabeça, porque o presente não é você aqui, sentado, lendo as palavras constituintes deste texto. Este é um presente, enquanto momento, que você considera, os tais subterfúgios acima descritos. Este seu presente guarda vários instantes cronologicamente percorridos e superados pelo tempo, portanto, presente não mais presente.

No entanto, algo interessante se manifesta neste período. Ele é a concretização do que esperamos ou não do “inexistente” futuro; dos cálculos que fazemos; dos desejos que rascunhamos; dos raciocínios que desenvolvemos; das crenças e deduções, enfim, ele é a realização. Esta responsabilidade que o presente carrega tem um nome e um peso que nenhum outro é capaz de sustentar e ele, em sua curtíssima existência, suporta com todo o valor mítico que amedronta e que, por aqui, chamamos “verdade”. Nele ela mora e por ele ela se manifesta. A verdade existe e mora com o presente, com quem tem uma longa e estável relação afetuosa.

O presente fascina porque ele não pára. A relação da passagem do tempo por ele é muito mais deslumbrante. O presente representado pelo escorrer da areia no estrangulamento da ampulheta é a melhor das metáforas porque reconstrói o sentido desta aceleração contínua do tempo – num instante o grão está acima do funil e no instante seguinte compõe o punhado de areia, como prova de um acontecimento.

No decorrer de sua existência o homem desenvolveu maneiras diversas de prorrogar, recriar ou reviver preciosos momentos preenchidos por situações que nunca se repetem ad fidem. As diversas vertentes artísticas surgem como perpetuação dessas experiências. Por este motivo guardamos fotografias, pinturas, gravações ou mesmo músicas como representações do passado, que, no entanto, recriam as sensações e o contexto do presente – daquele presente – possibilitando não apenas tal “deslocamento” a fim de reaver determinada situação e sensações, como também ter a possibilidade de fazê-la repetidas vezes e em qualquer tempo ou espaço.

O presente dura menos que um pensamento, mas é sempre verdadeiro.

Daniel Lopes

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"FUTURO" – Desconstrução

setembro 5, 2007

O futuro não existe e ponto. O que existe é um conjunto de regras, raciocínios, desejos e crenças que nos levam a construí-lo. Claro, que muitas vezes tais cálculos se perdem, se confundem ou simplesmente se enganam, mas a verdade é que a constante dedução barata do que está por vir, acaba por fomentar ainda mais sua existência. Criar o desenrolar de algumas ações, rascunhar determinadas reações ou vislumbrar possibilidades é projetar atitudes e construir o tempo em um tempo que não existe.

Não se pode contar com o que ainda não se concretizou. A concretização, no caso, é a realização, isto é, seu nascimento. Por uma questão cronológica, tudo se inicia na precipitação ao tempo de nosso raciocínio, o que chamamos futuro, se desenvolve e se concretiza durante a realização do seu momento, o que chamamos presente, e se finda e se fundamenta na perpetuação de sua existência, o que chamamos passado.

Todas as nossas atitudes, no entanto, são voltadas ao futuro. Mesmo quando pensamos em não de deixar de fazer algo, é esperando o alcance de um objetivo, mas mesmo assim buscar alcançar um objetivo é nos precipitarmos ao tempo; algo que ainda não é. Este “ainda não é” está no futuro; é o futuro, mas é também, para nós, a prévia concretização até que, por fim, se realize e satisfaça nosso desejo; a falsa idealização de sua existência.

Portanto, pensar no futuro, não é uma atividade exclusiva dos religiosos, mas a maneira como o religioso encara esta metáfora o difere de um descrente. Em suma, o princípio religioso atina para decisões em prol de uma conduta digna para que só após essa submissão possa gozar de sua correta postura. Em outras palavras, somados todos os atos, desenha-se o perfil espiritual e este será seu cartão de apresentação a cada uma das divindades creditadas nas diversas vertentes religiosas.

O futuro é e sempre será obscuro até ao mais relapso ou otimista dos seres humanos. Sua “não-existência” o torna ainda mais intrigante e polêmico, a ponto de conduzir-nos a cartomantes e outros leitores de destinos quando sozinhos não somos capazes de alcança-lo.

O futuro só passa a existir quando deixa de ser futuro.

Daniel Lopes

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"ARTE EM CHOQUE" – Desconstrução

abril 17, 2007

Em 1935 o filósofo Alemão Walter Benjamin (1892 – 1940) no ensaio A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, levantou uma discussão acerca das novas técnicas de reprodução artística. Segundo Benjamin, o advento do cinema e da fotografia não apenas abrangiam todas as formas de arte conhecidas até então, como também se inseriam como novas manifestações artísticas. Tais manifestações, no entanto, colocavam em choque valores antigos de contemplação da unicidade existente nas obras de arte.

DISSOLUÇÃO DA AURA

A reprodução do que se entendia por arte, materializada pela fotografia e pelo cinema, não mais permitiu a distinção da arte autêntica e sua cópia. A reprodução também influenciou no acesso da massa às obras. O que antes era bem restrito tornou-se amplo e dissipado. O cinema e a fotografia quebraram a barreira do espaço-tempo. Assim, o caráter de unicidade da obra tradicional foi diretamente afetado, desconstruindo, desta forma, a noção de aura, existente na contemplação artística. Isso porque a apreciação de uma obra envolve o modo de sentir e perceber e tais sentidos se formulam pelo caráter único e estritamente localizado de uma obra. Com a quebra do espaço-tempo, uma vez que sua reprodução podia se dar em qualquer lugar, o que não acontecia com a original no museu, e quando quisesse, pois a reprodução era ilimitada, o cinema, em especial, adquire uma significação social inédita possibilitando que a massa entre em contato com a arte, elemento tradicional da herança cultural.

EXIBIÇÃO E PERSONAGENS

A nova arte, no entanto, exige uma nova leitura. A mediação do aparato técnico e a massa representada pela lente da câmera são responsáveis pela captura e restrição do que se entende útil ao contexto. Desta forma, mesmo o ator tem sua atividade diretamente afetada, uma vez que sua atuação não permite, como em outras manifestações, um envolvimento participativo e interativo a exemplo do teatro e sua imediação. À frente de uma equipe técnica especializada a performance do ator é muito mais em cima de sua própria personalidade; performance de si mesmo. Por este motivo o desempenho do ator de cinema e muito mais desprovido de aura tal qual personagens interpretados por ele.

MONTAGEM E EDIÇÃO

Walter Benjamim, cita ainda, que é na montagem que o processo criativo do cinema se mostra ainda mais criativo. Por intermédio da alteração da percepção e apreciação da estética a montagem cinematográfica faz emergir choques audiovisuais entre planos e cenas. Sendo assim, a concentração e contemplação exigida pelas obras de artes tradicionais, deformam-se no cinema, que utiliza a conjugação de imagens à indução de um raciocínio. Logo, a apreciação da arte no cinema é distraída, uma vez que a associação de idéias é interrompida tanto pela velocidade do filme quanto pela edição de cenas inseridas no contexto desejado. O cinema não se faz só com os olhos e sua recepção apenas visual. O cinema, esta inovadora arte, é tátil e engloba os sentidos como um todo.

Daniel Lopes

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