Posts de Julho, 2006

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"DUAS ORIGENS" – Celofane.

Julho 20, 2006

Você com certeza já se perguntou, por pelo menos algumas vezes, de onde surgiu o homem, e logo lembrou do homem-primata, sapiens-sapiens, sapiens, erectus, enfim, macaco! Não é nenhum mérito chegarmos a tal conclusão, mesmo porque cansamos de ver e rever lá nos tempos de escola esta bela história.

Já experimentou, então, fazer-se a mesma pergunta após ter assistido a missa das 17h no domingão de família reunida na casa da tia Fátima. Com apenas meia hora de homilia do Sacerdote sua linha de raciocínio será outra.

Você agora vai estar pensando em Adão, Eva, maçã, enfim, pecado! O tão falado pecado que hoje, ao longo de seus vinte ou trinta anos, já nem parece “tããããão” pecado assim, né? Pois é. Foi lá que o homem iniciou sua trajetória de dominação sobre as demais espécies animais… ou não?

O fato é que, quase ao mesmo tempo que aprendemos a leitura científica, aprendemos também – talvez não por acaso – a leitura religiosa, sobre o surgimento da humanidade. Isto acaba que causando um dano irreversível de submissão aos dois fundamentos, e é claro você tende a recair para aquela que recentemente lhe exigiu alguma atenção, no nosso caso, uma missa de domingo é tempo, mais que suficiente, para tornarmos mais católicos, mesmo que seja apenas pelos poucos minutos subseqüentes.

O problema é que para o resto da vida as pessoas passarão a aceitar as duas origens por uma questão de conveniência. Por mais que a ciência utilize provas para comprovar a veracidade, sua credibilidade também é perecível, isto é, até a próxima missa de domingo.

É claro que, outros fatores acabam por influenciar o tema. Seja em traumas, ao qual, nos fazem perder a confiança em nós ou em nossos padroeiros; seja o estado de espírito que nos encontramos fruto, em sua maioria, do pé que primeiro tocamos o chão ainda pela manhã; ou, claro, seu grau de religiosidade. Quaisquer que sejam os motivos, estamos sempre oscilando entre as duas origens.

É importante então, já que se mostra inevitável, sabermos, ao menos, separá-los.

Imagine só o quão embaraçoso seria, você contar ao seu filho que a maçã foi a macaca que mastigou, depois que a cobra, que já andava ereta, a ameaçou com uma de suas armas, feitas a próprio punho, uma habilidade recente daquela espécie que outrora perdera uma de suas costelas no paraíso.

Daniel Lopes

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"CELOFANE" – Crônicas em série.

Julho 18, 2006

s. m. Película transparente de celulose regenerada, espécie de papel, altamente impermeável para gases secos, graxas e bactérias.

Pedindo licença à poética, mesmo que esta possa a mim, compreensivamente, não ser concedida…

Paradoxo – altamente impermeável por fluidos ou líquidos. Entretanto, perfeitamente permeável aos olhos. O que se vê é tudo? Se for, o celofane é permeável a tudo. Ao mesmo tempo que nada atravessa, tudo atravessa o celofane.

Trocando em miúdos. Crônica é o que vemos e vivemos todos os dias. No entanto, ao lermos, assistirmos ou escrevermos, nos distanciamos de tudo aquilo que vemos e vivemos. Como um celofane que se mostra permeável e impermeável a tudo, a crônica também exibe um sentindo paradoxal. O que se lê sobre o outro, não nos afeta, por acontecer com outros… mas… quem são os outros? Nós? Então nos afeta? Então…

celofane.

Daniel Lopes

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TIMOR LESTE – "O Retorno dos Conflitos" – 3ª de 3

Julho 1, 2006

Após o curto período de relativa paz denominado pós-guerra, os conflitos estão de volta em Timor Lorosa’e e apesar de não serem comparados aos atos de violência do sangrento passado timorense, os atuais conflitos tendem ser muito mais contundentes que outrora. Desta vez o inimigo é interno. Quando o maior opositor faz parte da própria gente, detê-lo significa cortar na própria carne!

Timor é um país jovem e, como tal, passa por muitas dificuldades. Como adendo às crises, está o fato de que Timor é um país que passou por muitos outros conflitos em sua conturbada história e isso se refletiu ao longo desta, dando margem para que suas guerras ganhassem proporções sem iguais. Antigos conflitos pegam carona nos atuais e isso resulta em múltiplos conflitos em que nunca se sabe em qual esfera brigas, incêndios e assassinatos, estão ocorrendo.

Apesar dos contra-tempos o povo timorense é apaixonante. Mesmo os ex-guerrilheiros carregam no olhar um temor que o fazem parecer acuados. Um timorense não atravessa sua frente sem que, com um dos braços esticados e a cabeça baixa, pronuncie: “licença, senhor”. Sua baixa estatura e timidez constroem uma imagem de fragilidade que nos faz imaginar o quanto já sofreu. No entanto, pensar em sua imagem não fornece real idéia da força na luta por sua liberdade.

Após vencer a grande batalha, no entanto, enganou-se quem pensou que todos os obstáculos estavam vencidos. Como um vulcão que gera grande parte de sua potência de forma calma e silenciosa, os atuais conflitos encarados por Timor também só despertaram o clima inconstante quando já estavam próximos da erupção. A guerra nasceu silenciosa, mas, ao contrário do que possam pensar, não oculta. Talvez menosprezada.

Na verdade não deram devida importância a razão do descontentamento de militares e policiais timorenses por vislumbrarem uma carreira que só era permitida aos pertencentes de determinadas regiões. Mas como questionar medidas preventivas de um governo que conhece bem os indícios, os traumas e as conseqüências de uma guerra? Por outro lado, como aceitar medidas que quase explicitam manifestações racistas e preconceituosas? Timor vive um drama patrocinado por um inimigo que não mais exerce reação e, no entanto, deixou cicatrizes que se abrem e sagram por feridas do passado.

Cerca de 600 militares timorenses organizaram manifestações de protestos às políticas de efetivação de carreira no exército e na polícia de Timor. Os manifestantes estavam insatisfeitos porque afirmavam ser desmerecidos quando na ocasião de promoções de carreiras que seriam destinadas a militares de regiões leste do país. O governo não titubeou e demitiu os manifestantes. Com a demissão, os manifestantes iniciaram ondas de roubos, incêndios e atentados, com o intuito de pressionarem o governo a reintegrá-los e incluí-los nas promoções. Apesar de negar a existências de prevaricações nas fileiras militares, o governo timorense teme a ascensão de timorenses originários de regiões oeste do país, devido a influência exercida pela Indonésia nessa área. Sabe-se que muitos dos componentes das milícias que assolaram o país com ações quase terroristas, eram provenientes dessas regiões e muitos, atualmente, podem estar usando fardas.

As ações dos manifestantes se reduziram depois que o Presidente Xanana Gusmão, por intermédio de manobra política na qual declarava “estado de emergência”, reassumiu o comando das forças militares e policiais. A popularidade do presidente não só acalmou o ânimo dos manifestantes como também derrubou o então Primeiro-Ministro Mari Alkatiri, responsável pelas demissões e alvo de fortes críticas do povo.

Novamente Timor vive clima de reconstrução e nós brasileiros que conhecemos de perto sua realidade esperamos que a sonhada liberdade e paz almejadas, lhe sejam, em breve, possíveis. Lembro-me agora da pequena Letícia. Com seus não mais que 9 anos dominava o português e nos servia de intérprete. Deixo aqui um beijo, com a esperança de que um dia, não distante, possa receber.

Daniel Lopes