Ok. O presente existe. Mas quanto?
Se existe algo mais rápido que a velocidade do pensamento é o presente. Sua existência é tão insignificante que a língua portuguesa se nega a entende-lo por completo. Tente, por exemplo, conjugar a primeira pessoa do presente do singular do verbo ir. Eu vou? Parece engraçado, mas o presente é tão passageiro que utilizamo-nos de subterfúgios para estendê-lo. Presente não é o que você acabou de fazer, assistiu agora há pouco ou vai acontecer já, já. Presente é a parte mais estreita da ampulheta. A melhor das definições.
Por este raciocínio pensar no presente é não pensar no presente; é pensar no futuro ou no passado, não no presente. A duração do presente é infinitamente menor que o pensamento. Se permita por um instante pensar nele. Aliás, guarde a palavra “instante” na sua cabeça, porque o presente não é você aqui, sentado, lendo as palavras constituintes deste texto. Este é um presente, enquanto momento, que você considera, os tais subterfúgios acima descritos. Este seu presente guarda vários instantes cronologicamente percorridos e superados pelo tempo, portanto, presente não mais presente.
No entanto, algo interessante se manifesta neste período. Ele é a concretização do que esperamos ou não do “inexistente” futuro; dos cálculos que fazemos; dos desejos que rascunhamos; dos raciocínios que desenvolvemos; das crenças e deduções, enfim, ele é a realização. Esta responsabilidade que o presente carrega tem um nome e um peso que nenhum outro é capaz de sustentar e ele, em sua curtíssima existência, suporta com todo o valor mítico que amedronta e que, por aqui, chamamos “verdade”. Nele ela mora e por ele ela se manifesta. A verdade existe e mora com o presente, com quem tem uma longa e estável relação afetuosa.
O presente fascina porque ele não pára. A relação da passagem do tempo por ele é muito mais deslumbrante. O presente representado pelo escorrer da areia no estrangulamento da ampulheta é a melhor das metáforas porque reconstrói o sentido desta aceleração contínua do tempo – num instante o grão está acima do funil e no instante seguinte compõe o punhado de areia, como prova de um acontecimento.
No decorrer de sua existência o homem desenvolveu maneiras diversas de prorrogar, recriar ou reviver preciosos momentos preenchidos por situações que nunca se repetem ad fidem. As diversas vertentes artísticas surgem como perpetuação dessas experiências. Por este motivo guardamos fotografias, pinturas, gravações ou mesmo músicas como representações do passado, que, no entanto, recriam as sensações e o contexto do presente – daquele presente – possibilitando não apenas tal “deslocamento” a fim de reaver determinada situação e sensações, como também ter a possibilidade de fazê-la repetidas vezes e em qualquer tempo ou espaço.
O presente dura menos que um pensamento, mas é sempre verdadeiro.
Daniel Lopes

