
"PRESENTE" – Desconstrução
Setembro 23, 2007Ok. O presente existe. Mas quanto?
Se existe algo mais rápido que a velocidade do pensamento é o presente. Sua existência é tão insignificante que a língua portuguesa se nega a entende-lo por completo. Tente, por exemplo, conjugar a primeira pessoa do presente do singular do verbo ir. Eu vou? Parece engraçado, mas o presente é tão passageiro que utilizamo-nos de subterfúgios para estendê-lo. Presente não é o que você acabou de fazer, assistiu agora há pouco ou vai acontecer já, já. Presente é a parte mais estreita da ampulheta. A melhor das definições.
Por este raciocínio pensar no presente é não pensar no presente; é pensar no futuro ou no passado, não no presente. A duração do presente é infinitamente menor que o pensamento. Se permita por um instante pensar nele. Aliás, guarde a palavra “instante” na sua cabeça, porque o presente não é você aqui, sentado, lendo as palavras constituintes deste texto. Este é um presente, enquanto momento, que você considera, os tais subterfúgios acima descritos. Este seu presente guarda vários instantes cronologicamente percorridos e superados pelo tempo, portanto, presente não mais presente.
No entanto, algo interessante se manifesta neste período. Ele é a concretização do que esperamos ou não do “inexistente” futuro; dos cálculos que fazemos; dos desejos que rascunhamos; dos raciocínios que desenvolvemos; das crenças e deduções, enfim, ele é a realização. Esta responsabilidade que o presente carrega tem um nome e um peso que nenhum outro é capaz de sustentar e ele, em sua curtíssima existência, suporta com todo o valor mítico que amedronta e que, por aqui, chamamos “verdade”. Nele ela mora e por ele ela se manifesta. A verdade existe e mora com o presente, com quem tem uma longa e estável relação afetuosa.
O presente fascina porque ele não pára. A relação da passagem do tempo por ele é muito mais deslumbrante. O presente representado pelo escorrer da areia no estrangulamento da ampulheta é a melhor das metáforas porque reconstrói o sentido desta aceleração contínua do tempo – num instante o grão está acima do funil e no instante seguinte compõe o punhado de areia, como prova de um acontecimento.
No decorrer de sua existência o homem desenvolveu maneiras diversas de prorrogar, recriar ou reviver preciosos momentos preenchidos por situações que nunca se repetem ad fidem. As diversas vertentes artísticas surgem como perpetuação dessas experiências. Por este motivo guardamos fotografias, pinturas, gravações ou mesmo músicas como representações do passado, que, no entanto, recriam as sensações e o contexto do presente – daquele presente – possibilitando não apenas tal “deslocamento” a fim de reaver determinada situação e sensações, como também ter a possibilidade de fazê-la repetidas vezes e em qualquer tempo ou espaço.
O presente dura menos que um pensamento, mas é sempre verdadeiro.
Daniel Lopes
“A verdade existe e mora com o presente, com quem tem uma longa e estável relação afetuosa.”
Errado Daniel. Duas vezes errado. A verdade é um conceito dúbio, inexistente porque só é perceptível como tal em casa uma das mentes, ou seja, é uma expectativa de verdade porque ela mesma não existe. Ela não se concretiza no presente porque, igualmente, o presente não existe. Quando imaginamos que ele chegou, erramos porque ele é passado. E se o passado é um conjunto de “presentes inexistentes, ora, óbvio que o passado não existe. O passado é matéria de História, manipulável (Mao foi um grande estadista? Por que não?). O que você chama de passado é História e história manipula-se de acordo com nosso desejo e aí torna-se círculo vicioso. Quando Eu falei que presente é a parte estreita da ampulheta (e você não deu o devido crédito ao humilde amigo rsrs)foi uma simbologia e não o que você exemplificou como verdade. Como chamar de presente, coisa substantiva e estática a algo em movimento, o tempo? Talvez o que exista é uma expectativa de movimento para uma expectativa de “verdade” projetada, ou seja, a paradoxal conclusão que “deveria existir” um tempo substantivo, que nos atendesse. Mas se fosse assim, não entenderíamos a brevidade da vida em quem tem 80 anos nem, muito menos, a possível realização plena do suicida de 25. Pense mais, Danielito
Geraldo Iglesias
Pronto. Em primeiro lugar, deixo o devido crédito à Geraldo Iglesias (rs).
Segundo, deixo explícitas algumas discordâncias e alguns acertos (rs).
A Verdade universal não existe! Mas a verdade individual, esta sim, existe e mora com o presente. É desta que falo…a verdade de cada um de nós.
o presente existe também. Só não somos capazes de entendê-lo porque seu tempo…não é o tempo de leitura do homem. Existe um momento em que ele deixa de ser futuro e passa a ser passado, este momento existe, entende-se presente, mas sua “duração é infinitamente menor que o pensamento”.
Respondendo outra colocação. Não podemos mensurar a duração do momento do presente porque está num tempo ilegível ao homem. Podemos, sim, simplifica-lo a um breve momento, mas em geral o multiplicamos por uma questão de comodidade.
Forte abraço.
Daniel