O passado não existe. Existiu.
O que é o passado senão um período onde são armazenados todos os tipos de experiências individuais ou coletivas, adquiridas pela interação com o outro, somadas às ações e reações, atitudes e sensações desempenhadas e desenvolvidas? Ou seja, tudo, exatamente tudo, que foi vivido – entenda-se vivenciado, assistido e pressentido – forma hoje um histórico/perfil de uma pessoa ou grupo; forma, portanto, sua identidade. Logo, todos vivemos do passado, pois é dele que somos constituídos.
Tudo que uma pessoa vive é guardado nesta caixa-arquivo e por ela se manifesta através da memória, que está diretamente relacionada à formação e perpetuação da cultura, costumes e tradições. O que hoje se faz pretérito não deve ser menosprezado, já que se mostra muito importante no que se refere a desenvolvimento. È por intermédio de experiências anteriores que somos capazes de reconhecer, por exemplo, o que é bom ou ruim, o que causa dor ou prazer, o que mata ou o que diverte antes que seja preciso reviver tais situações. O passado é tão importante que mesmo os animais irracionais desenvolvem a memória como mecanismo de defesa, para resgatar não apenas sensações físicas como também costumes e tradições em benefício da perpetuidade da espécie.
Mas o passado também possui uma curiosidade. Ele, ao contrário de qualquer outro período, é eterno. Mais que isso, ele nunca termina. Tudo o que já se encontra no passado recebe diariamente complementos, continuações e subscrições. Raramente fatos inéditos, mas freqüentemente correções. Houve um tempo em que a tuberculose não tinha cura, por exemplo, mas o desenvolvimento e a continuidade de experiências acumuladas e compartilhadas em relação à doença e seu antídoto, possibilitam hoje uma informação diferente. Logo, o passado, que cresce pra frente, recebe diariamente alterações, o que faz com que um passado remoto não tenha a mesma resposta que o passado de ontem.
Não por acaso, algumas especialidades se empenham na função de reconstrução do passado. São museólogos, biógrafos, historiadores e diferentes pesquisadores, sem subtrair os professores, que nada mais são que pessoas, de primeira importância, que proliferam e perpetuam ensinamentos adquiridos no passado. Profissionais, cada qual em seu ramo, com o comum intuito de resgatar informações passadas que possam ser úteis nos dias atuais para soluções futuras. Sem o passado estaríamos condenados a caminhar em círculos, revivendo situações um sem-números de vezes e impossibilitando que ultrapassássemos, intelectualmente, a chamada idade primitiva. O passado está, portanto, sempre em evidência e é situação sine qua non para que a humanidade caminhe adiante.
O passado é eterno, mutável e referência para novos caminhos.
Daniel Lopes
