Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte Aqui.
No decorrer da existência da humanidade, a formação dos agrupamentos sociais desencadeou o surgimento de determinadas estruturas que se inseriram e se fundamentaram, exatamente, pela necessidade do ser humano de viver em grupo. As chamadas instituições – assim denominadas por instituírem leis e normas que se estabelecem em caráter social – formam a estrutura básica da sociedade. Esta estrutura é responsável pela formação intelectual e cultural do indivíduo, que é responsável pela formação de costumes e tradições de uma comunidade, que por sua vez é responsável pela formação da identidade cultural de uma determinada sociedade.
O ser humano é notadamente uns dos animais mais frágeis nos períodos que precedem a idade adulta. Proporcionalmente à expectativa de vida, a infância do homem é bem extensa e durante este período o ser humano está completamente vulnerável. Somente perto de seus dois anos o homem começa a desenvolver a capacidade de se alimentar sozinho, por exemplo, necessidade básica para sua sobrevivência, mas a verdadeira busca pelo alimento, a caça ou a coleta, ainda estão bem distantes nesta fase. Entretanto, não muito diferente dos outros animais, o ser humano necessita de uma estrutura que forneça uma proteção enquanto sua cria não é capaz de se defender e sobreviver com seus próprios meios. A família enquanto instituição de afeto, espaço privado e manutenção do patrimônio, se encarrega desta função.
A instituição família é, a priori, responsável por salvaguardar sua cria, não apenas alimentando-a, como também, protegendo-a de possíveis males externos, danos à saúde ou mesmo predadores de sua espécie. A segurança da família deve possibilitar que o, então, indefeso ser se desenvolva e desenvolva habilidades que futuramente possibilitem gerar segurança às suas próprias crias. Particularmente no ser humano, este sentido de proteção é tão arraigado que mesmo na fase adulta, o homem se sente mais seguro no leito de sua família. Em todo o reino animal é possível perceber o instinto de proteção comum aos laços de família. É na família que nos apoiamos.
Outra importante responsabilidade da família enquanto instituição é a formação do sentido de afeto. Nesta fase, a partir da sensação de aceitação do filho e cuidado dos pais, o homem desenvolve o sentido de afeto por coisas e pessoas. A incondicionalidade dos pais frente às necessidades de seu filho é a construção e o fortalecimento deste afeto, que ganha proporções à medida que ele envelhece. Com o passar dos anos o afeto é responsável pelo desencadear do respeito ao próximo, a possibilidade de uma disciplina social e a formação dos interesses, que servirão para pontuar prioridades e traçar objetivos no futuro. São comuns traumas de infância no leito da família gerarem distúrbios responsáveis pela construção de um ser humano perigoso para o convívio social. É na família que nos humanizamos.
A instituição família é responsável também pela formação do sentido de patrimônio, muito mais no sentido de construção de caráter, que no sentido material. Como primeira instituição pedagógica, a família desenvolve o sentido de patrimônio em sua cria, e nela própria se fomenta. O bem maior do ser parte dela e nela se constrói. Não há interesse que se sobreponha aos valores da família, quando na construção do diálogo há uma correta comunhão entre comunicação e educação no leito da família. O patrimônio é a formação do caráter, que se constrói na referência da cria em seus criadores. Isto é, o filho que quer ser como o pai, pelo respeito e afeto que tem por ele. É na família que nos espelhamos.
A família não é a única responsável pela formação do indivíduo, mas é a primeira. É aquela que constrói alguém que continuará se reconstruindo. O desenvolvimento humano necessita de uma evolução cadenciada, onde a cada etapa superada uma nova é alcançada. E quem não tem esta etapa? E quem não tem uma família? Como se sentir seguro sem a segurança da família? Como sentir afeto sem o afeto da família? Como construir um caráter sem referência de caráter? É preciso pensar que uma sociedade sem esses casos, ou não pensar em sociedade. Como um grande quebra-cabeça de apenas duas peças: pais querem e não podem ter filhos; filhos órfãos e abandonados precisam e não podem ter pais. É tudo muito simples e nós dificultamos.
Daniel Lopes
