
“FAMÍLIA” – Construção do Indivíduo / Cap. I
fevereiro 12, 2008Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte Aqui.
No decorrer da existência da humanidade, a formação dos agrupamentos sociais desencadeou o surgimento de determinadas estruturas que se inseriram e se fundamentaram, exatamente, pela necessidade do ser humano de viver em grupo. As chamadas instituições – assim denominadas por instituírem leis e normas que se estabelecem em caráter social – formam a estrutura básica da sociedade. Esta estrutura é responsável pela formação intelectual e cultural do indivíduo, que é responsável pela formação de costumes e tradições de uma comunidade, que por sua vez é responsável pela formação da identidade cultural de uma determinada sociedade.
O ser humano é notadamente uns dos animais mais frágeis nos períodos que precedem a idade adulta. Proporcionalmente à expectativa de vida, a infância do homem é bem extensa e durante este período o ser humano está completamente vulnerável. Somente perto de seus dois anos o homem começa a desenvolver a capacidade de se alimentar sozinho, por exemplo, necessidade básica para sua sobrevivência, mas a verdadeira busca pelo alimento, a caça ou a coleta, ainda estão bem distantes nesta fase. Entretanto, não muito diferente dos outros animais, o ser humano necessita de uma estrutura que forneça uma proteção enquanto sua cria não é capaz de se defender e sobreviver com seus próprios meios. A família enquanto instituição de afeto, espaço privado e manutenção do patrimônio, se encarrega desta função.
A instituição família é, a priori, responsável por salvaguardar sua cria, não apenas alimentando-a, como também, protegendo-a de possíveis males externos, danos à saúde ou mesmo predadores de sua espécie. A segurança da família deve possibilitar que o, então, indefeso ser se desenvolva e desenvolva habilidades que futuramente possibilitem gerar segurança às suas próprias crias. Particularmente no ser humano, este sentido de proteção é tão arraigado que mesmo na fase adulta, o homem se sente mais seguro no leito de sua família. Em todo o reino animal é possível perceber o instinto de proteção comum aos laços de família. É na família que nos apoiamos.
Outra importante responsabilidade da família enquanto instituição é a formação do sentido de afeto. Nesta fase, a partir da sensação de aceitação do filho e cuidado dos pais, o homem desenvolve o sentido de afeto por coisas e pessoas. A incondicionalidade dos pais frente às necessidades de seu filho é a construção e o fortalecimento deste afeto, que ganha proporções à medida que ele envelhece. Com o passar dos anos o afeto é responsável pelo desencadear do respeito ao próximo, a possibilidade de uma disciplina social e a formação dos interesses, que servirão para pontuar prioridades e traçar objetivos no futuro. São comuns traumas de infância no leito da família gerarem distúrbios responsáveis pela construção de um ser humano perigoso para o convívio social. É na família que nos humanizamos.
A instituição família é responsável também pela formação do sentido de patrimônio, muito mais no sentido de construção de caráter, que no sentido material. Como primeira instituição pedagógica, a família desenvolve o sentido de patrimônio em sua cria, e nela própria se fomenta. O bem maior do ser parte dela e nela se constrói. Não há interesse que se sobreponha aos valores da família, quando na construção do diálogo há uma correta comunhão entre comunicação e educação no leito da família. O patrimônio é a formação do caráter, que se constrói na referência da cria em seus criadores. Isto é, o filho que quer ser como o pai, pelo respeito e afeto que tem por ele. É na família que nos espelhamos.
A família não é a única responsável pela formação do indivíduo, mas é a primeira. É aquela que constrói alguém que continuará se reconstruindo. O desenvolvimento humano necessita de uma evolução cadenciada, onde a cada etapa superada uma nova é alcançada. E quem não tem esta etapa? E quem não tem uma família? Como se sentir seguro sem a segurança da família? Como sentir afeto sem o afeto da família? Como construir um caráter sem referência de caráter? É preciso pensar que uma sociedade sem esses casos, ou não pensar em sociedade. Como um grande quebra-cabeça de apenas duas peças: pais querem e não podem ter filhos; filhos órfãos e abandonados precisam e não podem ter pais. É tudo muito simples e nós dificultamos.
Daniel Lopes
Grande Daniel, Parabéns pelo texto!
A dificuldade começa em nós mesmos. O ser humano vive de se satisfazer e realizar seus sonhos. Sonhos. Quem não os têm? Filhos. Muitos desejam. Outros evitam. E há quem rejeite-os.
Quem os rejeita precisa de orientação. Ter um filho é direito de cada ser humano. Seja por desejo, acidente (falta de proteção…), violência… Mas quando não desejado, o poder público e a sociedade (através de ONGs e grupos afins) deve apoiar para que a vida seja gerada e que ela tenha a oportunidade de ter uma família. Ter amor. A genitora, muitas vezes sem instrução e orientação, precisa de uma estrutura que a oriente. Informando que o encaminhamento da criança para adoção não acarretará em represálias e punição para a mesma. Assim como a gestação e o parto devem ser acompanhados através de exames de pré-natal.
Mas e quem os deseja e os não pode ter? No passado (não tão distante, e ainda muito presente) a adoção à brasileira era o termo comum para conseguir “aumentar uma família”. A evolução das leis e a criação do ECA trouxe à tona um processo legal mais justo e ainda um pouco imperfeito. A adoção legal é o caminho para se conseguir encontrar o filho tão desejado. Há um caminho ainda bem grande a ser percorrido para que mudanças como uma lista (fila) *nacional* de pretendentes à adoção ocorram. O tempo de espera ainda é muito grande e a busca do filho querido precisa ser mais tranquila e com mais suporte. Ainda sabemos de alguns casos de equipes técnicas mal treinadas e que não suportam os pretendentes a adoção de forma acolhedora e satisfatória
Mas é só isso? Não. A dificuldade começa em nós mesmos, pelo egoísmo e falta de visão da sociedade. Quando desejamos nosso filho pensamos em como gostaríamos que fosse e informamos o perfil desejado. Esse perfil é um sonho. Um sonho que é está muito distante de todos. A menina branca, recém-nascida e de cabelos lisos é a materialização de um sonho. Um sonho que muitas vezes não se realizaria se estivéssemos esperando por um filho biológico. Precisamos abrir nossos horizontes.
As crianças abrigadas atualmente não apresentam esse perfil. Negros. Mulatos. Grupos de irmãos. Crianças enfermas. HIV positivo. Down. Quantos são os excluídos… Quantos são os que nunca terão a oportunidade de ter uma família… De sentir o amor. De ter em quem se apoiar, quem possa os humanizar e servir de exemplo, e se tornarem um adulto…
oi Daniel,tudo bem? li o seu texto enquanto procurava artigos cientificos sobre familia,pois o meu tcc é sobre a influencia da familia na formaçao do individuo, e confesso que fiquei muito contente com o que li. gostaria de aproveitar esse texto para reforçar o meu trabalho.se for possivel gostaria de ter mais dados sobre a sua pessoa para incluir nas referencias ou caso tenha se inspirado em algum livro quero pedir a sua colaboraçao me enviando a bibliografia. desde já quero lhe parabenizar pelo texto e lhe agradecer independente de atender o meu pedido ou nao, pois a sua contribuiçao já foi muito util para mim.
com carinho, elda