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“IGREJA” – Construção do Indivíduo / Cap. III

fevereiro 25, 2010

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte aqui.

Não existem dados concretos para o despertar da religiosidade no homem. Ao que parece ela está presente desde o inicio das formações sociais e há os que acreditam que o homem de Neanderthal já cultuava determinados animais e acreditava na vida após a morte. Esta linha de raciocínio defende que as primeiras crenças se estabeleceram pelo culto aos antepassados e que antigos Xamãs, surgidos há mais de 50 mil anos, foram determinantes para que a relação entre os dois mundos se fortalecesse.

Com o passar dos anos, décadas, séculos e milênios esta relação se institucionalizou. Com o desenvolvimento do raciocínio, a formação da fala a partir de símbolos sonoros e, posteriormente, a formação da escrita, o homem fincou pilares de perpetuação do conhecimento. A chamada memória coletiva, junção da memória individual por agrupamentos sociais, base da identidade cultural, disseminou o conhecimento espiritual como culto a saúde e cura de doenças da alma. A religião marcou os primeiros passos da medicina, bem representado em seu símbolo pelo cajado de Asclépio, deus da medicina, filho de Apolo com Coronis, envolvido por uma serpente. Os romanos acreditavam que o animal representava o poder dos deuses, pois circulavam livremente pelos templos e seus imortais.

A relação com o sobrenatural ganhou traços de divindade e logo graus de superioridade e conhecimento sobre-humano. Todo knowleged religioso passou a ter status de proximidade a Deus e, portanto, absoluto. Deus se fundamentou na fé que se fundamentou em Deus. Valores rito-religiosos se fundiram ainda mais aos valores culturais, isto é, na construção do individuo a formação religiosa passou a condição fundamental.

Dos cultos nasceram os templos e dos templos os cultos ganharam padronização. A formação do individuo religioso ganhou aspectos formais e concretos. Os agrupamentos se fortaleceram e se fundamentaram gerando vínculos sócio-ideológicos. O individuo passou a ser iniciado aos hábitos religiosos tão logo adquirisse uma formação mínima de discernimento, absorvida na escola e precedida pela família.

De alguma forma a religião sempre esteve relacionada a costumes e tradições inerentes a formação cultural. Por este motivo diferentes crenças, com diferentes cultos e ritos se estabeleceram até mesmo entre agrupamentos de uma mesma nação. Os templos ajudaram a legitimar a religião como instituição quando estes adquiriram aspectos de antigas ágoras, onde o espaço público assumia o caráter de comunhão, politização, pertencimento e formação intelectual. Historicamente, a religião esteve presente entre os principais aspectos motivadores de conflitos e guerrilhas, mas ainda é uma das principais vigas de sustentação da tolerância, respeito aos valores individuais e harmonização social.

Símbolos e passagens históricas foram associados às crenças e hoje a religião tem o papel de fundamentar o individuo a valores culturais que até então este só reproduzia. Hoje os ritos vão muito além, quando desassociam a matéria e ensaiam o consenso e o comportamento comunitário. É na formação religiosa que o individuo perde os valores da matéria para adquirir os valores da alma, mas principalmente prepara para regras e leis que estão acima dos valores do homem, pois fundamentam a existência deste.

Daniel Lopes

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