Arquivo da categoria ‘Celofane’

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A Fé e o Tempo – Celofane

Abril 29, 2008

Existe uma premissa aos religiosos que se resume em uma simples frase: “o senhor é meu pastor e nada me faltará”. Outras bem similares também podem ser citadas para representar a mesma idéia: “Deus é pai, não é padrasto”. Ou mesmo “tudo posso naquele que me fortalece”. Como estas, outras várias frases feitas representam a mesma crença, mesmo que não façam parte da mesma fé. Todas explicitam claramente que Deus, sendo ele quem for, sempre estará olhando por nós, se fizermos bem nosso dever de casa, claro.

Aos que não possuem fé ou possuem, mas não em todas as horas ou, pior, os que sequer acreditam num plano metafísico, o físico plano dos números e sua simples contagem do tempo, consolida sua crença e a exigência de uma figura fiel às virtudes do homem, passam a ser do racional senhor tempo. É no tempo que essas pessoas acreditam e, para elas, ele esclarece todo o equívoco que o homem criou, cura todas as enfermidades, derruba todas as máscaras e fundamenta tudo o que foi simplesmente especulado. O ex-presidente Fernando Collor de Melo, ao utilizar-se de tal raciocínio, disse certa feita: “o tempo é o senhor da razão”. Será?

Nem sempre, no entanto, a fé e o tempo estão dissociados, pelo contrário, a maior parte das pessoas lida com as duas vertentes como se fossem derivados de um mesmo primitivo. E por que não? No entanto, é preciso ter cautela. Para alguns, esta é uma boa oportunidade para fazer… nada! A idéia de abster-se parece boa. Não é o caso de todos, claro. Todavia é preciso ter cuidado porque muitas pessoas não são, mas passam a se acomodar, sem que percebam e quando se dão conta, deixaram de ajudar muitas gente, deixaram de aproveitar os momentos com a família, deixaram de produzir, deixaram de deixar para a prosperidade algo que orgulhasse seus amigos e, principalmente, deixaram de cuidar de si. Não se deram conta que os vinte poucos anos passaram e “estar em forma” e “com saúde” não parecem mais fazer parte do leque de frases, não menos feitas, ouvidas na rua.

Faz-se necessário uma outra observação. Algumas coisas não são exatamente o que parecem. Tanto as pessoas que se baseiam na fé, quanto as pessoas que se orientam pelo tempo, bem como as pessoas que lidam com os dois, precisam estudar bem seus princípios. Não parece razoável o ser humano “cobrar” que Deus tome partido de sua causa ou esperar ganhar algo em troca de uma boa ação, o que também não deixa de ser uma cobrança, mesmo porque, assim como o sentido de tempo para Deus não é igual ao mesmo para homem, o sentido de justiça e razão também não o é.

Por outro lado, não significa que “cobrar” do tempo seja melhor resposta. É preciso entender que o tempo não esclarece “verdades” e sim as fundamenta, ou seja, o que o tempo especula, por intermédio do futuro, realiza, por intermédio do presente, e perpetua, por intermédio do passado, é a verdade idealizada pelo indivíduo e convencionada pelo coletivo. É preciso entender que o tempo detém a dita verdade, o que não quer dizer, primeiro, que seja a verdade que você espera e, segundo, que esta verdade apareça. Assim como ela, a dita verdade, pode aparecer daqui a dois minutos, pode também aparecer daqui a dois mil anos ou, simplesmente, nunca. Não parece claro que o tempo é realmente o senhor da razão?

Daniel Lopes

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"MUNDO PUBLICITÁRIO" – Celofane

Março 18, 2007

Tempo é dinheiro.

Uma das profissões que mais lida com esta relação é a publicidade. Aliás, publicidade é simplesmente a força motriz de movimentação do atual mundo capitalista. Diga-se de passagem, talvez seja o mercado que mais evoluiu nos últimos 20 anos. Com o advento de novas tecnologias, o mercado publicitário se cobrou novos rumos e cada vez mais informatizado e inserido no consenso das sociedades contemporâneas, os limites para o publicitário simplesmente ruíram.

Quem não é visto, não é lembrado.

Na atual sociedade, vulgar se tornou sinônimo de boa qualidade. Sabendo disso o publicitário soube bem utilizar esta arma em seu benefício. A publicidade redescobriu o funcionamento do mercado, provou que ser conhecido representa maior procura, maior procura representa valorização, valorização representa lucro e tudo se tem início na divulgação da marca. Quantas vezes você já desistiu de comprar algo só porque nunca ouviu falar?

Imagem é tudo.

Novas tecnologias possibilitaram não apenas o desenvolvimento de melhores peças publicitárias, bem como melhorias nos principais veículos de exploração da imagem, que atualmente respondem por televisão, rádio (imagem no sentido metafísico) e a cada vez mais forte internet. A sociedade contemporânea cobrou, também, maior responsabilidade, por parte do segundo setor, em questões sócio-ambientais. Rapidamente publicitários e assessores buscaram conciliar a imagem de seus clientes a tais questões, gerando fomento a organizações não-governamentais e investimentos em projetos e campanhas de utilidade pública.

Onde todos ganham.

O mercado tem dinheiro e quer ser conhecido para ganhar mais dinheiro; o publicitário tem a técnica e quer tornar seu cliente mais conhecido para ganhar dinheiro; a TV tem o espaço e quer ser mais conhecida para proporcionar às empresas a serem mais conhecidas para ganhar dinheiro. Todos querem dinheiro; seu dinheiro. Você quer consumir; eles querem seu consumo. Então você dobra sua carga de trabalho para ter mais dinheiro para aumentar seu consumo para gerar mais carga neste motor. Eis o mundo capitalista.

Em tempo.

Logo que as partidas de futebol foram inseridas na programação das emissoras de TV, anunciantes perceberam a excelente oportunidade de divulgação de imagem. Logo o espaço de placas publicitárias nas laterais dos campos se tornou pequeno, então empresas, buscando expor suas logos, e clubes, buscando finanças, juntaram-se para que suas imagens fossem familiarizadas do público consumidor em potencial. Mas o mercado de divulgação queria mais. Sendo assim, entraram em contato com as emissoras para que, durante a transmissão, fossem exibidos anúncios nos cantos da tela. Era pouco. Os placares foram aumentados possibilitando um espaço destinado, exclusivamente, a propagandas comerciais animadas. Ainda era pouco. Então perceberam a ótima oportunidade de deitar anúncios no campo, na parte externa ao lado das balizas, desta forma não apenas suas imagens seriam divulgadas durante os jogos, com também após, durante re-exibições dos gols em telejornais. Mas claro, era pouco. Então algumas emissoras, por intermédio de animações gráficas, imputaram postes e outros chamativos publicitários artificialmente nos gramados. São belíssimos, mas a criatividade é o que realmente impressiona.

Enfim, atualmente outro membro fora inserido aos portadores de anúncios comercias: “seu” juiz. Pois é. O árbitro da partida, já há algum tempo, ostenta em suas costas anúncios comerciais maiores até que os dos próprios atletas. Avaliando por este ponto de vista, penso que futuramente nossos os jogadores e juízes usarão calças e camisas compridas, possibilitando maior espaço as peças publicitárias. Mas acho que a grande sacada vai ser na bola. Em breve – acreditem! – somente uma fina camada, transparente e externa girará, sendo assim uma outra camada interna com logos empresariais ficará sempre nunca mesma posição por mais que a bola gire. Um golaço do time dos publicitários. Sem dúvida, verdadeiros campeões.

Daniel Lopes

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"DONOS DO PEDAÇO" – Celofane

Janeiro 29, 2007

A noite carioca chegou a um ponto, no mínimo, curioso. Noite, mas poderia tranqüilamente citar qualquer período do dia de uma pessoa que esteja transitando pelas ruas da cidade maravilhosa. Engraçado seria, se trágico não fosse. Já foi a época que nossa única preocupação era pegar um caminho menos perigoso, mais iluminado ou, até mesmo, o mais rápido. Por outro lado, tais preocupações não necessariamente encontram-se extintas. Apenas um outro preocupante fator ganhou destaque. Hoje carioca tem medo é de “flanelinha”.

Engano pensar que houve redução nos índices de criminalidade. Ela apenas mudou de cara, nome e atende de forma quase lícita, pois a idéia já está tão incorporada que a atividade não sugere qualquer tipo de fiscalização. Ela simplesmente existe e ponto.

O raciocínio e, no mínimo, interessante: você se desloca ao local desejado, observa um ponto de parada de seu interesse e direciona seu veículo. O local não sugere qualquer sinal de propriedade particular. Desde que respeitadas as normas de trânsito, você como cidadão tem o direito de utilização daquele espaço. Eis que surge, então, alguém que indica o local exato onde você deve estacionar, como, exatamente, o carro você deve deixar e, principalmente, quanto, significativamente, você deve pagar. Tal taxa representa a realização da atividade de guarda de seu patrimônio em seu benefício. Olha que lindo! Pena que a denominação do termo “imposto” nunca tenha sido tão bem representada.

Tudo bem, o espaço é público, você faz parte do “público”, mas “lamento amigo, a área é minha, eu vi primeiro”. É isso mesmo. Ele é o “dono do pedaço”. Você não está pagando a proteção do seu carro contra bandidos, e sim contra o próprio que diz estar guardando seu patrimônio. Bom, neste caso ele também responde pela denominação “bandido”, mas “flanelinha” é seu codinome, uma clara referência as primeiras manifestações da atividade, quando os homens que a executavam carregavam consigo flanelas que utilizavam para sinalizar o trânsito e lustrar o veículo enquanto o “seu dono não vem”. A flanela, quase que totalmente, desapareceu junto com os homens de bem. Ainda, em poucos lugares, encontramos legítimos “flanelinhas”. Deve ser mais fácil encontrar um mico-leão dourado em compras de Natal no Saara.

Avisar não custa: jamais tente enganar um deles. Estão sempre lidando com pessoas que tentam se esquivar de seus serviços. Em outras palavras, são muito mais espertos que você. Os donos do pedaço movimentam um negócio de dar inveja a muitos micro-empresários e o não-pagamento de seus préstimos pode gerar arranhões métricos no seu veículo. Não invente! Se você não quer pagar, não pare! Vá procurar outro lugar. Porque aquele tem dono… e ele cobra o aluguel.

Daniel Lopes

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"HOJE EU ACORDEI" – Celofane

Janeiro 13, 2007

Hoje eu acordei ateu.

Faz pelo menos 10 horas que estou dormindo, acordo e ainda é noite. Ela é mais longa hoje. Triste. Toma-me um falso sentimento de culpa. Matei Deus e seus soldados. Sento-me à cama. Quero não acreditar, mas meus pensamentos lógicos estão misturados em cada uma das sensações que passo. Não me soltam. Não me deixam. Rendo-me contra minha vontade. Contra minha esperança. Deus não existe hoje pra mim. O que faço? Como posso viver assim? Cercam-me os que crêem. Culpam-me os que crêem. Não tenho a intenção. Sou vítima de meus cálculos matemáticos. São certos. Não restam dúvidas. O Big-Bang faz muito mais sentido que Adão e Eva ou a cobra e a maçã. Feliz os tolos que acreditam. Vivem felizes os dias de amanhã. Dias que não vêem amanhã. Amanhã que não existe pra mim… infelizmente. Sou pequeno. Sou nada. Não existia antes de nascer, não vou existir depois de morrer. É simples, trágico e muito, muito doloroso. Meus heróis não morreram de overdose. Morreram loucos. Como poucos. Por isso foram heróis idolatrados por pessoas que ainda existem e cegamente não acreditam no que eles diziam. Mas eu acredito, hoje, para o meu completo desespero. Sabiamente alguém escreveu, o que outrora se tornou parte do livro sagrado, que a maçã traria o conhecimento que detinha o Pai e por isso tal proibição. O amargo gosto desta fruta desfruto agora. Torno-me aos poucos tão grande quanto Deus a ponto de não enxerga-lo. De não compreende-lo. De não escuta-lo. Uma pena. Queria que hoje não existisse, como não vou mais existir um dia. Queria não ter estes heróis. Queria apenas idolatra-los como o rebanho dos que neles não acreditam. Queria ser cego, surdo e mudo pra reduzir a quase nada minhas vontades, apenas seguir o fluxo e viver pra sempre.

Hoje eu acordei

Virei-me na cama e avistei um Homem à margem dela. Não via Seu rosto. Sua expressão. Via em Seus lentos movimentos, o cuidado de quem me faz um bem. Não falo. Não responde. Nosso diálogo não sugere palavras, mas gestos. Ele não precisa delas. Estranho como o dia clareou rápido e junto com ele, minhas esperanças. Meus olhos estão alegres e molhados. Sinto cada parte de meu corpo por centímetro de vitalidade. São unidades de medidas conhecidas por homens do rebanho, e por mim, apenas hoje. Não perdi tempo antes de conhecer este Senhor, mas ganhei o tempo que daqui virá. Não me levanto. Não me sento. Estou mais que confortável. Estou vivo. Nasci hoje. Não calculo mais. Meu Pai não criou números. Criou homens. O Homem à beira da cama se afasta e logo entendo que precisa visitar outros homens que dormem. Existem poucos que não acordam, mas muitos estão sonolentos. Sono lento que leva 10 horas e não desperta o dia que com luz clareia o caminho. Hoje ganho novos heróis. Antigos, agora os idolatro não acreditando em seus brilhantes retalhos. São homens, criativos como só e vítimas de seus cálculos construídos por números não criados pelo Pai, como si próprio. O Homem se foi em corpo, mas o dia claro, fresco e pacífico me traz uma boa sensação de que ele volta quando eu precisar, no momento que eu precisar, sem palavras ou números, pra mostrar que Ele sempre existiu e eu, a partir de hoje ou apenas hoje, vou existir pra sempre

e… vice-versa.

Daniel Lopes

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"O DIA ‘D’ QUEM?" – Celofane

Novembro 21, 2006

A década de 90 se tornou um marco no que se refere ao ensino acadêmico nacional. Foi nela que ocorreu a transposição de um sério problema que acercavam jovens na faixa entre 15 e 20 anos: a difícil escolha da profissão a ser seguida. O peso dos vestibulares era a “grande batalha” a ser encarada por aqueles que reuniam condições para tal. O problema se mostrava tão verdadeiro que o sofrimento precedia pelo menos três anos a data prevista. Ainda no início do, atualmente chamado, ensino médio, estudantes se amontoavam em atividades extras com o intuito de se apresentar em melhores condições que outros, então, futuros candidatos. Os cursos pré-vestibulares arrecadavam fortunas.

O problema não foi exatamente resolvido. Foi transferido. Mais especificamente para 4 anos mais tarde. Obviamente muita gente se viu prejudicada. No final da década de 90 ocorreu um “boom” das instituições de ensino superior particulares fomentado, no passado, pelo Governo Federal que, justamente com tal propósito, permitia a designação de filantrópica a empresas que surgiam com este fim. Desta forma, estas empresas gastavam menos com impostos, mais com publicidade e a procura era cada vez maior.

De início não ocasionava perigo às elites, uma vez que ainda se respeitava a formação em universidades públicas. Mas o mercado mudou bastante. Até por conta da absorção, por parte das universidades particulares, de alunos que reuniam condições de passar nos vestibulares e, no entanto, não foram felizes. Outro fator responsável foi a difícil condição do ensino em universidades públicas. Aulas passaram a ser substituídas por longos períodos de greves de professores que buscavam melhores salários. Como um dominó em queda, um problema foi gerando outro. Tais professores encontraram na iniciativa privada os salários dignos que procuravam – e não encontravam – no serviço público. Assim sendo, o quadro das universidades particulares foi deveras enriquecido.

Passou-se então a jorrar mãos-de-obra. “Rios” de gente formada e habilitada passaram a ser postas a disposição do mercado de trabalho todos os anos. Famílias gozaram de suas primeiras gerações de formados, passando – a priori – um saudável sentimento de dignidade. Logo, a estrutura educacional brasileira seria bruscamente alterada. O trabalho passou a ser fonte de meios necessários para se continuar sonhando. A elite perdeu valiosas fatias do “bolo” e o nepotismo – palavra da moda – surge como plano “B” e logo ganha status de “A” como salvação das classes mais favorecidas. No entanto, conforme dito anteriormente, os vestibulares perderam parte de sua importância e, por excelência, o peso da escolha profissional deixou de ser no início para ser ao final da formação, quando, enfim, é chegada a hora de encarar a máquina mercado congestionada de gente.

O que devo fazer? Qual o caminho que devo seguir? Que vertente profissional devo escolher? Devo tentar outros campos? Devo fazer pequenos serviços? E se eu abrisse uma empresa? Qual o meu diferencial? Tantas perguntas acabam por deixar duras seqüelas. Hoje muitos jovens encaram esta fase de incertezas e sentem-se perdidos. Não sabem o que fazer e muitos nada fazem. Apenas arquivam seus diplomas e seguem em profissões que em nada condizem com sua formação. E o pior: talentos são desperdiçados por conta do nepotismo ou porque simplesmente não tiveram oportunidades de mostrar seu trabalho; seu potencial. Um estranho medo surge: o medo de deixar de ser criança e tornar-se responsável, no principal sentido do termo – responder por. O que antes era brincadeira, quando não ignorado, agora é coisa séria. O capitalismo é devorador e não terá pena de ninguém. A contemporânea forma de aprisionamento é o endividamento no cartão de crédito e o jovem já inicia sua vida preso.

Não raro, o interesse particular está acima de qualquer outro. O que você acha que motiva formações de quadrilhas corruptas? Nada se faz se não houver um “incentivo” como Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner sugerem no livro “Freakonomics”. Deixa-se inclusive o que há de melhor para o conjunto e pega-se o que há de melhor para si. Desta forma, seguimos em frente lamentando problemas sérios estruturais de políticas básicas. Lamentamos o caos que se encontra a segurança, saúde e educação públicas e não sabemos onde erramos. Cada um de nós é responsável por tomar decisões que influenciam uma ou mais vidas a cada novo questionamento. É importante que estas decisões sejam avaliadas com seriedade e por quem tem competência. E competência e seriedade não se aprendem na faculdade.

Daniel Lopes

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"OS TRÊS FAZERES" – Celofane

Novembro 10, 2006

O texto em questão surge de uma adaptação sofrida por um conhecido dito popular. Tudo na vida é passageiro. Certo? Errado! Quantas vezes já ouvimos esta frase? Muitas, com certeza. Mas não podemos esquecer do “trocador” e do “motorista”. O que parece engraçado é na verdade um assunto sério e não damos conta de sua importância que se apresenta nos dias atuais e em cada um de nós.

A verdade é que, estamos condicionados a nos confortar com nossas pequenas conquistas. É claro que toda conquista deve ser comemorada, mas, ao contrário do que realmente acontece, esta deve servir de incentivo a uma próxima.

Quando utilizamos a expressão “tudo na vida é passageiro”, não estamos apenas impondo limites aos maus momentos os quais passamos. A vida não é composta apenas de momentos ruins. Os bons também se fazem presentes e o cruzamento destes extremos é o que, por fim, chamamos de vida. Logo, afirmar que tudo está, em todo momento, mudando é aceitar a posição – que lhe parece imposta e cômoda – de passageiro.

Tornar-se um passageiro, é mais que pontuar o fim. É também estar passivo aos acontecimentos. O “trocador” e o “motorista” não são passageiros, porque estão em ação. Pensando nas situações prováveis ou não, eles que estão sempre em movimento. Logo, os exemplos a serem seguidos.

Levando em consideração o ônibus como a representação do mercado, podemos melhor visualizar as figuras do passageiro, do trocador e do motorista. O primeiro não exerce qualquer tipo de ação que não seja a de entrar no mercado/ônibus, além do que seu ingresso possui uma validade previamente estipulada – o ponto onde irá descer. O trocador, ao contrário do que faz o passageiro – ou deixa de fazer – exerce alguma função. Esta, no entanto, não chega a ser de extrema significância, mas é necessária para que o mercado/ônibus funcione bem. Já o motorista é a figura de suma importância. É ele que faz com que o mercado realize o seu principal objetivo – o deslocamento! No entanto, o melhor da função de motorista é ter sob seu comando não só o direcionamento que lhe for mais cômodo como também a velocidade que lhe for mais segura. Não é difícil de entender, então, quem possui a principal função. Isso, obviamente, requer uma maior atenção e responsabilidade, mas se você não estiver disposto a tais funções, não reclame mais tarde, dos ônibus lotados.

Por fim, tal expressão não deve ser abolida. Ela deve continuar existindo, entretanto, com um sentido positivo. Ela deve servir de motivação. Algumas pessoas a utilizam como forma de coerção, intimidação e até mesmo com um tom ameaçador. Cá entre nós, existe coisa mais importante na vida que desejar, pura e simplesmente, a queda de outro. Existem coisas boas e realmente importantes para nos preocuparmos com a nossa. Corra atrás, procure-as, encontre-as e fale: tudo na vida é passageiro, mas eu sou o motorista.

Daniel Lopes

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"A ROBOTIZAÇÃO HUMANA E A HUMANIZAÇÃO ROBÓTICA" – Celofane.

Agosto 29, 2006

Tudo mudou desde que as máquinas passaram a dar o ar de sua graça no cotidiano das grandes cidades. Ressalta-se ainda, que toda essa revolução só não se faz mais contundente por conseqüência do inversamente proporcional avanço tecnológico longe dos centros urbanos. Com a ampliação da mão de obra, antes destinada apenas aos seres humanos, empresas detentoras de bom poder aquisitivo passaram a depender apenas de suas próprias economias para dobrar sua produção. Era apenas o rascunho das sociedades contemporâneas. Essa relação de amor e ódio se desenhou durante anos, percorrendo tempo e espaço no decorrer dos últimos séculos alcançando os dias atuais. À medida que a tecnologia e suas vertentes se mostravam cada vez mais exploráveis, o homem se mostrou cada vez mais explorador, disponibilizando recursos incalculáveis.

Nas últimas duas décadas, tudo que se entendia por interação humana ganhou novas definições. Passamos a depender do trabalho das máquinas. De forma direta ou não, passamos a estar, cada vez mais, em interação com máquinas e cada vez menos com humanos. O homem urbano que se preze passou a não ter vida se não possuidor uma identidade virtual. Antes a condição de existência era ter um nome, com o tempo passou a ser o registro e o hoje é ter um e-mail. Antes que coloquemos em questão os valores sociais ou sua degradação, voltemos às questões centrais.

A sociedade aperfeiçoou sua mão de obra, programando máquinas que pudessem desempenhar as mesmas funções dos humanos, com rapidez, eficiência e, principalmente, sem descanso. Não raro, o homem não apenas se sentiu ameaçado, como realmente foi. As máquinas ocuparam o lugar de trabalhadores derrubando em primeiro lugar os mais idosos. Mas o homem demonstrou reação. A nova sociedade, não mais dócil pelos regimes murados da produção industrial, exigiu um trabalhador não mais detentor de juventude e braço forte. Exigiu conhecimento, o que se entende por informação, aplicação e experiência.

E então as máquinas ressurgem com nova roupagem. O computador caiu no colo do homem com a imagem do caçula carente que merece atenção especial, enquanto não cresce e contraria com escolhas de vida. Hoje, no entanto, o que se entende por interação homem/máquina ganha novos horizontes. Talvez destinadas a assumirem de vez o controle da vida na terra, as máquinas passaram a se mostrar cada vez mais humanas. Algumas características diferenciavam qualquer ser humano de um puro e simples robô. Entretanto essas diferenças estão cada vez mais escassas, uma vez que o desenvolvimento tecnológico atribuiu às máquinas o poder de simular desejos e escolhas, outrora somente permitido a seres dotados de raciocínio. Hoje as máquinas nascem com domínio do conhecimento, desenham escolhas e não mais desempenham sua função com igual maestria sem uma boa noite de sono.

Daniel Lopes

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"A FRAGILIDADE DO SER DE SER" – Celofane.

Agosto 11, 2006

Um ano de vida e o ser humano começa a dar seus primeiros passos. Alguns anos depois começa a se alimentar sem a ajuda de seus genitores. Com mais alguns, sua dentição é substituída por aquela que vos acompanhará por toda sua existência. Não há dúvidas sobre a fragilidade do ser. Se dependesse de seus próprios meios o homem não seria capaz de sobreviver e caçar se tornaria dificuldade tamanha, que possivelmente teria como sua a vaga de presa fácil na cadeia alimentar do mundo animal.

Naturalmente a evolução da espécie foi generosa aos detentores da habilidade de raciocinar, mesmo que esse termo se torne pejorativo num mundo, dito civilizado, onde os homens continuam a se matar como na época de cavernas como moradia. Na medida que os anos passaram e o primitivismo foi esvaindo-se, o homem foi se agrupando e gerando o que hoje chamamos de sociedade, onde os cuidados com recém chegados garantem sua sobrevivência.

No entanto, a grande vantagem do homem, o raciocínio, torna-se também sua questão mais delicada. À medida que o indivíduo se forma, formam-se junto seus interesses, não apenas os coletivos, mas sim, e principalmente sim, os individuais. Derrubam-se os conceitos de sociedade e o homem se depara com o impasse fruto da relação de interesses particulares.

Os Conflitos passam a fazer parte da vida em sociedade e do cotidiano do ser humano. Tudo, exatamente tudo, que necessita ação do homem, requer que se instaure um conflito. Conflitos são jogos de dois ou mais jogadores que possuem, cada um, um ou mais interesses, logo seu desenvolver nunca é tão simples, não obstante à observação de sociedades que mantém íntimas as relações religiosas e culturais, em que conflito é sinônimo de guerra.

Em geral o discorrer dos conflitos são desencadeados em duas vertentes. A violência, como supracitada, ou o consenso que é sempre momentâneo. A má ou a não administração de um conflito resulta na primeira vertente enquanto a segunda resulta da correta administração. Esta última seria a solução em que as duas partes são eqüitativas se no ganho ou na perda parcial ou, mesmo, total dos interesses. Neste caso o importante é que se faça presente o igual peso das partes.

Então, o que é paz pra você? Antes que coloquemos roupas brancas, soltemos pombinhas ao vento ou acendamos velhinhas pleiteando o direito de viver em uma sociedade onde se impere a paz, pensemos: o que é paz pra você? Um lugar onde não se formem conflitos? Onde não se gerem questionamentos? Onde são aceitas, sem qualquer impasse, normas? Onde estas são respeitadas cegamente? Plenitude!
Será justa essa dita paz? Será verdadeira? Será honesta? Ou será utópica? E quem garante que já não vivamos num simulacro dessa chamada paz? Ou não te incomoda a insatisfação de um cidadão, ao bradar sua indignação com o mau tratamento recebido na fila do banco? Se a paz que se refere é um mundo sem violência, regado a respeito, cidadania e responsabilidade social, repense a paz que você pede!

Daniel Lopes

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"CANIBALISMO DO TEATRO URBANO MODERNO" – Celofane.

Agosto 1, 2006

Nas grandes civilizações teocráticas de autoridade absoluta do soberano, qualquer desvio era punido com o máximo de severidade. A Grécia antiga foi a primeira sociedade a elaborar justificativas para a censura. Baseado no princípio de que o governo da pólis (cidade-estado) constituía a expressão dos desejos dos cidadãos, este podia reprimir todo aquele que tentasse contestá-lo. Sócrates foi exemplo quando condenado por irreligiosidade e corrupção de jovens, foi executado através de ingestão de cicuta. A censura se fincava nas sociedades e mesmo Platão, discípulo de Sócrates, a defendia como um dos requisitos essenciais ao governo.

Esta então, passou a difundir-se no mundo. Em Roma alguns princípios gregos foram copiados. A Lei das Doze Tábuas castigava com a morte os autores de sátiras políticas, e em muitas ocasiões condenou à destruição pública diversas obras de literatura e filosofia.

Desde as primeiras manifestações, os artistas eram alvo de repressões e, por este motivo, obrigados a não mostrarem seus rostos uma vez que, eram castigados se pegos na prática de tal exercício. As máscaras então surgiram como solução rápida. Com elas os artistas de ruas não eram reconhecidos e desta forma podiam fazer graças sem serem reprimidos.

Séculos se passaram. As máscaras caíram. Mas os artistas ainda vivem. Agora vestem roupas mais simples – são crianças carentes – muitas vezes nem tão crianças assim – que ganham a vida na faixa de pedestres. Os atuais artistas de rua percorrem a cidade com os mesmo truques e habilidades, agora, por uma questão única e exclusivamente de necessidade.

Não menos censurados, eles não precisam mais se esconder. Não se faz necessário o uso de máscaras por um simples motivo: não são mais meia-dúzia de “artistas” nas ruas. Agora são dezenas, centenas

A falta cometida por estes artistas hoje, é não estarem nas ruas. O fomento, que agora parte das autoridades (in)competentes, é para que continuem a fazer graça. Afinal, nem mais crime é – O que seria do rico sem o pobre? – Da um “pouquinho” e eles logo ficam felizes, não perturbam mais, acreditam que na paz e, de quebra, ainda votam na gente!

O canibalismo nunca esteve tão na moda.

Uma nova modalidade, mas “canibalismo” sim. Devoramos nossa própria espécie, e as fazemos devorar-se umas as outras. É bem verdade que não as comemos ipsis literis, mas é como se fosse, devoramos nossa gente de forma premeditada sem darmos nenhum tipo de oportunidade. Todos. Todos nós temos culpa…

Não se surpreenda se este diálogo tornar-se real em breve. Não estamos longe disso.

- Amor, vamos ao circo?
- Vamos! Quanto é?
- É de graça.
- O que? Onde?
- Logo ali, debaixo daquele semáforo!

O espetáculo é bem diversificado e… concorrente. Para os amantes do equilibrismo tem; para os amantes do malabarismo tem; para os amantes das palhaçadas… bom, este tem de sobra! Até porque, tudo que movimenta (o mínimo de) dinheiro gera concorrência no Brasil. É o que vemos nesta lona nos dias de hoje. Os pequenos artistas carentes agora disputam a faixa com artistas profissionais. Gente criada em circo e que se sentia prejudicada porque os moleques “tiravam” mais. Enfim, se pobre nada tem, no lugar de algo pra perder o podre perde o lugar.

E o que seria de um espetáculo sem algo para degustar? Nada! O cardápio também é bem variado. Vai de pipocas a balas e amendoins. No espetáculo out-door nada pode faltar. Um programa perfeito para o “finzinho” de tarde. Por falar nisso, o que você vai fazer hoje? Que tal um teatrinho? A peça? O Canibalismo do Teatro Urbano Moderno.

Daniel Lopes

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"DUAS ORIGENS" – Celofane.

Julho 20, 2006

Você com certeza já se perguntou, por pelo menos algumas vezes, de onde surgiu o homem, e logo lembrou do homem-primata, sapiens-sapiens, sapiens, erectus, enfim, macaco! Não é nenhum mérito chegarmos a tal conclusão, mesmo porque cansamos de ver e rever lá nos tempos de escola esta bela história.

Já experimentou, então, fazer-se a mesma pergunta após ter assistido a missa das 17h no domingão de família reunida na casa da tia Fátima. Com apenas meia hora de homilia do Sacerdote sua linha de raciocínio será outra.

Você agora vai estar pensando em Adão, Eva, maçã, enfim, pecado! O tão falado pecado que hoje, ao longo de seus vinte ou trinta anos, já nem parece “tããããão” pecado assim, né? Pois é. Foi lá que o homem iniciou sua trajetória de dominação sobre as demais espécies animais… ou não?

O fato é que, quase ao mesmo tempo que aprendemos a leitura científica, aprendemos também – talvez não por acaso – a leitura religiosa, sobre o surgimento da humanidade. Isto acaba que causando um dano irreversível de submissão aos dois fundamentos, e é claro você tende a recair para aquela que recentemente lhe exigiu alguma atenção, no nosso caso, uma missa de domingo é tempo, mais que suficiente, para tornarmos mais católicos, mesmo que seja apenas pelos poucos minutos subseqüentes.

O problema é que para o resto da vida as pessoas passarão a aceitar as duas origens por uma questão de conveniência. Por mais que a ciência utilize provas para comprovar a veracidade, sua credibilidade também é perecível, isto é, até a próxima missa de domingo.

É claro que, outros fatores acabam por influenciar o tema. Seja em traumas, ao qual, nos fazem perder a confiança em nós ou em nossos padroeiros; seja o estado de espírito que nos encontramos fruto, em sua maioria, do pé que primeiro tocamos o chão ainda pela manhã; ou, claro, seu grau de religiosidade. Quaisquer que sejam os motivos, estamos sempre oscilando entre as duas origens.

É importante então, já que se mostra inevitável, sabermos, ao menos, separá-los.

Imagine só o quão embaraçoso seria, você contar ao seu filho que a maçã foi a macaca que mastigou, depois que a cobra, que já andava ereta, a ameaçou com uma de suas armas, feitas a próprio punho, uma habilidade recente daquela espécie que outrora perdera uma de suas costelas no paraíso.

Daniel Lopes