Existe uma premissa aos religiosos que se resume em uma simples frase: “o senhor é meu pastor e nada me faltará”. Outras bem similares também podem ser citadas para representar a mesma idéia: “Deus é pai, não é padrasto”. Ou mesmo “tudo posso naquele que me fortalece”. Como estas, outras várias frases feitas representam a mesma crença, mesmo que não façam parte da mesma fé. Todas explicitam claramente que Deus, sendo ele quem for, sempre estará olhando por nós, se fizermos bem nosso dever de casa, claro.
Aos que não possuem fé ou possuem, mas não em todas as horas ou, pior, os que sequer acreditam num plano metafísico, o físico plano dos números e sua simples contagem do tempo, consolida sua crença e a exigência de uma figura fiel às virtudes do homem, passam a ser do racional senhor tempo. É no tempo que essas pessoas acreditam e, para elas, ele esclarece todo o equívoco que o homem criou, cura todas as enfermidades, derruba todas as máscaras e fundamenta tudo o que foi simplesmente especulado. O ex-presidente Fernando Collor de Melo, ao utilizar-se de tal raciocínio, disse certa feita: “o tempo é o senhor da razão”. Será?
Nem sempre, no entanto, a fé e o tempo estão dissociados, pelo contrário, a maior parte das pessoas lida com as duas vertentes como se fossem derivados de um mesmo primitivo. E por que não? No entanto, é preciso ter cautela. Para alguns, esta é uma boa oportunidade para fazer… nada! A idéia de abster-se parece boa. Não é o caso de todos, claro. Todavia é preciso ter cuidado porque muitas pessoas não são, mas passam a se acomodar, sem que percebam e quando se dão conta, deixaram de ajudar muitas gente, deixaram de aproveitar os momentos com a família, deixaram de produzir, deixaram de deixar para a prosperidade algo que orgulhasse seus amigos e, principalmente, deixaram de cuidar de si. Não se deram conta que os vinte poucos anos passaram e “estar em forma” e “com saúde” não parecem mais fazer parte do leque de frases, não menos feitas, ouvidas na rua.
Faz-se necessário uma outra observação. Algumas coisas não são exatamente o que parecem. Tanto as pessoas que se baseiam na fé, quanto as pessoas que se orientam pelo tempo, bem como as pessoas que lidam com os dois, precisam estudar bem seus princípios. Não parece razoável o ser humano “cobrar” que Deus tome partido de sua causa ou esperar ganhar algo em troca de uma boa ação, o que também não deixa de ser uma cobrança, mesmo porque, assim como o sentido de tempo para Deus não é igual ao mesmo para homem, o sentido de justiça e razão também não o é.
Por outro lado, não significa que “cobrar” do tempo seja melhor resposta. É preciso entender que o tempo não esclarece “verdades” e sim as fundamenta, ou seja, o que o tempo especula, por intermédio do futuro, realiza, por intermédio do presente, e perpetua, por intermédio do passado, é a verdade idealizada pelo indivíduo e convencionada pelo coletivo. É preciso entender que o tempo detém a dita verdade, o que não quer dizer, primeiro, que seja a verdade que você espera e, segundo, que esta verdade apareça. Assim como ela, a dita verdade, pode aparecer daqui a dois minutos, pode também aparecer daqui a dois mil anos ou, simplesmente, nunca. Não parece claro que o tempo é realmente o senhor da razão?
Daniel Lopes


