Arquivo da categoria ‘Construção’

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“ESCOLA” – Construção do Indivíduo / Cap. II

Julho 20, 2008

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte aqui.

Nos dias atuais é possível afirmar que a instituição escola se apresenta como um segundo passo na construção do indivíduo, precedido apenas pela família. Historicamente, o homem desenvolveu diferentes tipos de ensinamentos até chegar ao modelo atual, mesmo este não sendo, para alguns, o ideal e muito menos estabelecido pelo mesmo padrão em todos os cantos do mundo. Ainda na antiguidade toda a forma de ensinamento se concentrava nos encargos da família. Na Idade Média, no entanto, passou a ser entendida de uma outra forma e os filhos de pessoas com posses passaram a ter seus próprios mestres particulares. Só a partir da segunda metade do século XVIII a educação ganhou os traços do rascunho que hoje conhecemos por escola.

O homem é um animal sujeito a relações sociais que envolvem questões dialéticas e históricas, das quais a política, a econômica, a cultura, a ciência, entre outras vertentes, dão continuidade ao processo de evolução da espécie. Há quem observe que o homem é de natureza social e que tudo que o humaniza é resultado da vida em sociedade. Por este motivo, uma das características fundamentais da instituição escola é a submissão do indivíduo ao processo de interação social. É na escola que a criança tem o primeiro contato com a sociedade por intermédio do convívio e do vínculo estabelecido na reunião com outros membros que constituem a sociedade.

É possível entender os processos básicos da estrutura educacional atual se estudarmos seu contexto. Nos primeiros anos de vida, por exemplo, o ser humano não é fraco apenas fisicamente, mas também psicologicamente e por esta razão, na escola, as crianças são subdivididas por idade, evitando que o convívio com crianças mais velhas possa causar traumas relacionados à questão da inferioridade. Outra questão importante que diz respeito a divisão em turmas e turnos escolares é que faixas etárias diferentes desenvolvem interesses diferentes, o que influencia diretamente na capacidade de absorção do conteúdo proposto.

Com a inserção do relógio, no cumprimento do horário, a criança começa a desenvolver o sentido de compromisso. Hora de acordar, de entrar na escola, de iniciar os estudos, de realizar sua merenda, de recrear, de retomar os estudos, de voltar pra casa, até que o dia se finda com a hora de dormir. A imposição da criança aos horários é o início do processo de docilização disciplinar do indivíduo, isto é, o processo em que os corpos se tornam mais produtivos e adaptados ao tempo e ao espaço da sociedade contemporânea, segundo Michel Foucault. O compromisso com o correto cumprimento dos horários desenvolve na criança o senso de responsabilidade e os limites estabelecidos por tal concepção passam a atuar definitivamente na vida do indivíduo.

Não é à toa também que as escolas fundamentam a utilização de uniformes por seus alunos e, em muitos casos, também seus funcionários. Como o nome já diz, o uso do uniforme evita que as diferenças se tornem agressivas, principalmente quando tais diferenças envolvem classes sociais e econômicas. Muitas escolas proíbem inclusive a utilização de jóias, peças de roupas adicionais e até maquiagem, como complemento à norma que estabelece igualdade entre as classes. O uniforme exerce na criança um sentido de pertencimento e auxilia na correta concepção do espaço ocupado pelo individuo na escola e, portanto, na sociedade. O uniforme estabelece uma única forma, acusando os que são iguais e pertencentes ao mesmo grupo, bem como os que não são e não pertencem.

Na escola se inicia o processo de desenvolvimento da memória coletiva, crucial na manutenção da identidade cultural a partir da junção da memória individual compartilhada na escola por seus corpos docentes e discentes. Tal processo não apenas impede que valores e costumes culturais se percam, como também permite que a sociedade permaneça em desenvolvimento. Na escola também se estabelece o sentido de autoridade, atribuída ao professor, ao inspetor, ao coordenador, entre outros, que faz com que a criança comece a entender que não só a seus pais deve respeito. A escola, enquanto provedora de limites, de interação social, de responsabilidades, de inclusão social, é, portanto, muito mais que uma instituição que ensina Matemática ou Português, mas uma instituição essencial na construção do indivíduo civilizado e contemporâneo.

Daniel Lopes

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“FAMÍLIA” – Construção do Indivíduo / Cap. I

Fevereiro 12, 2008

Leia os ensaios sobre construção do indivíduo na ordem em que estão sendo postados. Consulte Aqui.

No decorrer da existência da humanidade, a formação dos agrupamentos sociais desencadeou o surgimento de determinadas estruturas que se inseriram e se fundamentaram, exatamente, pela necessidade do ser humano de viver em grupo. As chamadas instituições – assim denominadas por instituírem leis e normas que se estabelecem em caráter social – formam a estrutura básica da sociedade. Esta estrutura é responsável pela formação intelectual e cultural do indivíduo, que é responsável pela formação de costumes e tradições de uma comunidade, que por sua vez é responsável pela formação da identidade cultural de uma determinada sociedade.

O ser humano é notadamente uns dos animais mais frágeis nos períodos que precedem a idade adulta. Proporcionalmente à expectativa de vida, a infância do homem é bem extensa e durante este período o ser humano está completamente vulnerável. Somente perto de seus dois anos o homem começa a desenvolver a capacidade de se alimentar sozinho, por exemplo, necessidade básica para sua sobrevivência, mas a verdadeira busca pelo alimento, a caça ou a coleta, ainda estão bem distantes nesta fase. Entretanto, não muito diferente dos outros animais, o ser humano necessita de uma estrutura que forneça uma proteção enquanto sua cria não é capaz de se defender e sobreviver com seus próprios meios. A família enquanto instituição de afeto, espaço privado e manutenção do patrimônio, se encarrega desta função.

A instituição família é, a priori, responsável por salvaguardar sua cria, não apenas alimentando-a, como também, protegendo-a de possíveis males externos, danos à saúde ou mesmo predadores de sua espécie. A segurança da família deve possibilitar que o, então, indefeso ser se desenvolva e desenvolva habilidades que futuramente possibilitem gerar segurança às suas próprias crias. Particularmente no ser humano, este sentido de proteção é tão arraigado que mesmo na fase adulta, o homem se sente mais seguro no leito de sua família. Em todo o reino animal é possível perceber o instinto de proteção comum aos laços de família. É na família que nos apoiamos.

Outra importante responsabilidade da família enquanto instituição é a formação do sentido de afeto. Nesta fase, a partir da sensação de aceitação do filho e cuidado dos pais, o homem desenvolve o sentido de afeto por coisas e pessoas. A incondicionalidade dos pais frente às necessidades de seu filho é a construção e o fortalecimento deste afeto, que ganha proporções à medida que ele envelhece. Com o passar dos anos o afeto é responsável pelo desencadear do respeito ao próximo, a possibilidade de uma disciplina social e a formação dos interesses, que servirão para pontuar prioridades e traçar objetivos no futuro. São comuns traumas de infância no leito da família gerarem distúrbios responsáveis pela construção de um ser humano perigoso para o convívio social. É na família que nos humanizamos.

A instituição família é responsável também pela formação do sentido de patrimônio, muito mais no sentido de construção de caráter, que no sentido material. Como primeira instituição pedagógica, a família desenvolve o sentido de patrimônio em sua cria, e nela própria se fomenta. O bem maior do ser parte dela e nela se constrói. Não há interesse que se sobreponha aos valores da família, quando na construção do diálogo há uma correta comunhão entre comunicação e educação no leito da família. O patrimônio é a formação do caráter, que se constrói na referência da cria em seus criadores. Isto é, o filho que quer ser como o pai, pelo respeito e afeto que tem por ele. É na família que nos espelhamos.

A família não é a única responsável pela formação do indivíduo, mas é a primeira. É aquela que constrói alguém que continuará se reconstruindo. O desenvolvimento humano necessita de uma evolução cadenciada, onde a cada etapa superada uma nova é alcançada. E quem não tem esta etapa? E quem não tem uma família? Como se sentir seguro sem a segurança da família? Como sentir afeto sem o afeto da família? Como construir um caráter sem referência de caráter? É preciso pensar que uma sociedade sem esses casos, ou não pensar em sociedade. Como um grande quebra-cabeça de apenas duas peças: pais querem e não podem ter filhos; filhos órfãos e abandonados precisam e não podem ter pais. É tudo muito simples e nós dificultamos.

Daniel Lopes