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Nos dias atuais é possível afirmar que a instituição escola se apresenta como um segundo passo na construção do indivíduo, precedido apenas pela família. Historicamente, o homem desenvolveu diferentes tipos de ensinamentos até chegar ao modelo atual, mesmo este não sendo, para alguns, o ideal e muito menos estabelecido pelo mesmo padrão em todos os cantos do mundo. Ainda na antiguidade toda a forma de ensinamento se concentrava nos encargos da família. Na Idade Média, no entanto, passou a ser entendida de uma outra forma e os filhos de pessoas com posses passaram a ter seus próprios mestres particulares. Só a partir da segunda metade do século XVIII a educação ganhou os traços do rascunho que hoje conhecemos por escola.
O homem é um animal sujeito a relações sociais que envolvem questões dialéticas e históricas, das quais a política, a econômica, a cultura, a ciência, entre outras vertentes, dão continuidade ao processo de evolução da espécie. Há quem observe que o homem é de natureza social e que tudo que o humaniza é resultado da vida em sociedade. Por este motivo, uma das características fundamentais da instituição escola é a submissão do indivíduo ao processo de interação social. É na escola que a criança tem o primeiro contato com a sociedade por intermédio do convívio e do vínculo estabelecido na reunião com outros membros que constituem a sociedade.
É possível entender os processos básicos da estrutura educacional atual se estudarmos seu contexto. Nos primeiros anos de vida, por exemplo, o ser humano não é fraco apenas fisicamente, mas também psicologicamente e por esta razão, na escola, as crianças são subdivididas por idade, evitando que o convívio com crianças mais velhas possa causar traumas relacionados à questão da inferioridade. Outra questão importante que diz respeito a divisão em turmas e turnos escolares é que faixas etárias diferentes desenvolvem interesses diferentes, o que influencia diretamente na capacidade de absorção do conteúdo proposto.
Com a inserção do relógio, no cumprimento do horário, a criança começa a desenvolver o sentido de compromisso. Hora de acordar, de entrar na escola, de iniciar os estudos, de realizar sua merenda, de recrear, de retomar os estudos, de voltar pra casa, até que o dia se finda com a hora de dormir. A imposição da criança aos horários é o início do processo de docilização disciplinar do indivíduo, isto é, o processo em que os corpos se tornam mais produtivos e adaptados ao tempo e ao espaço da sociedade contemporânea, segundo Michel Foucault. O compromisso com o correto cumprimento dos horários desenvolve na criança o senso de responsabilidade e os limites estabelecidos por tal concepção passam a atuar definitivamente na vida do indivíduo.
Não é à toa também que as escolas fundamentam a utilização de uniformes por seus alunos e, em muitos casos, também seus funcionários. Como o nome já diz, o uso do uniforme evita que as diferenças se tornem agressivas, principalmente quando tais diferenças envolvem classes sociais e econômicas. Muitas escolas proíbem inclusive a utilização de jóias, peças de roupas adicionais e até maquiagem, como complemento à norma que estabelece igualdade entre as classes. O uniforme exerce na criança um sentido de pertencimento e auxilia na correta concepção do espaço ocupado pelo individuo na escola e, portanto, na sociedade. O uniforme estabelece uma única forma, acusando os que são iguais e pertencentes ao mesmo grupo, bem como os que não são e não pertencem.
Na escola se inicia o processo de desenvolvimento da memória coletiva, crucial na manutenção da identidade cultural a partir da junção da memória individual compartilhada na escola por seus corpos docentes e discentes. Tal processo não apenas impede que valores e costumes culturais se percam, como também permite que a sociedade permaneça em desenvolvimento. Na escola também se estabelece o sentido de autoridade, atribuída ao professor, ao inspetor, ao coordenador, entre outros, que faz com que a criança comece a entender que não só a seus pais deve respeito. A escola, enquanto provedora de limites, de interação social, de responsabilidades, de inclusão social, é, portanto, muito mais que uma instituição que ensina Matemática ou Português, mas uma instituição essencial na construção do indivíduo civilizado e contemporâneo.
Daniel Lopes

