Arquivo da categoria ‘Desconstrução’

h1

“PASSADO” – Desconstrução

outubro 31, 2007

O passado não existe. Existiu.

O que é o passado senão um período onde são armazenados todos os tipos de experiências individuais ou coletivas, adquiridas pela interação com o outro, somadas às ações e reações, atitudes e sensações desempenhadas e desenvolvidas? Ou seja, tudo, exatamente tudo, que foi vivido – entenda-se vivenciado, assistido e pressentido – forma hoje um histórico/perfil de uma pessoa ou grupo; forma, portanto, sua identidade. Logo, todos vivemos do passado, pois é dele que somos constituídos.

Tudo que uma pessoa vive é guardado nesta caixa-arquivo e por ela se manifesta através da memória, que está diretamente relacionada à formação e perpetuação da cultura, costumes e tradições. O que hoje se faz pretérito não deve ser menosprezado, já que se mostra muito importante no que se refere a desenvolvimento. È por intermédio de experiências anteriores que somos capazes de reconhecer, por exemplo, o que é bom ou ruim, o que causa dor ou prazer, o que mata ou o que diverte antes que seja preciso reviver tais situações. O passado é tão importante que mesmo os animais irracionais desenvolvem a memória como mecanismo de defesa, para resgatar não apenas sensações físicas como também costumes e tradições em benefício da perpetuidade da espécie.

Mas o passado também possui uma curiosidade. Ele, ao contrário de qualquer outro período, é eterno. Mais que isso, ele nunca termina. Tudo o que já se encontra no passado recebe diariamente complementos, continuações e subscrições. Raramente fatos inéditos, mas freqüentemente correções. Houve um tempo em que a tuberculose não tinha cura, por exemplo, mas o desenvolvimento e a continuidade de experiências acumuladas e compartilhadas em relação à doença e seu antídoto, possibilitam hoje uma informação diferente. Logo, o passado, que cresce pra frente, recebe diariamente alterações, o que faz com que um passado remoto não tenha a mesma resposta que o passado de ontem.

Não por acaso, algumas especialidades se empenham na função de reconstrução do passado. São museólogos, biógrafos, historiadores e diferentes pesquisadores, sem subtrair os professores, que nada mais são que pessoas, de primeira importância, que proliferam e perpetuam ensinamentos adquiridos no passado. Profissionais, cada qual em seu ramo, com o comum intuito de resgatar informações passadas que possam ser úteis nos dias atuais para soluções futuras. Sem o passado estaríamos condenados a caminhar em círculos, revivendo situações um sem-números de vezes e impossibilitando que ultrapassássemos, intelectualmente, a chamada idade primitiva. O passado está, portanto, sempre em evidência e é situação sine qua non para que a humanidade caminhe adiante.

O passado é eterno, mutável e referência para novos caminhos.

Daniel Lopes

h1

"PRESENTE" – Desconstrução

setembro 23, 2007

Ok. O presente existe. Mas quanto?

Se existe algo mais rápido que a velocidade do pensamento é o presente. Sua existência é tão insignificante que a língua portuguesa se nega a entende-lo por completo. Tente, por exemplo, conjugar a primeira pessoa do presente do singular do verbo ir. Eu vou? Parece engraçado, mas o presente é tão passageiro que utilizamo-nos de subterfúgios para estendê-lo. Presente não é o que você acabou de fazer, assistiu agora há pouco ou vai acontecer já, já. Presente é a parte mais estreita da ampulheta. A melhor das definições.

Por este raciocínio pensar no presente é não pensar no presente; é pensar no futuro ou no passado, não no presente. A duração do presente é infinitamente menor que o pensamento. Se permita por um instante pensar nele. Aliás, guarde a palavra “instante” na sua cabeça, porque o presente não é você aqui, sentado, lendo as palavras constituintes deste texto. Este é um presente, enquanto momento, que você considera, os tais subterfúgios acima descritos. Este seu presente guarda vários instantes cronologicamente percorridos e superados pelo tempo, portanto, presente não mais presente.

No entanto, algo interessante se manifesta neste período. Ele é a concretização do que esperamos ou não do “inexistente” futuro; dos cálculos que fazemos; dos desejos que rascunhamos; dos raciocínios que desenvolvemos; das crenças e deduções, enfim, ele é a realização. Esta responsabilidade que o presente carrega tem um nome e um peso que nenhum outro é capaz de sustentar e ele, em sua curtíssima existência, suporta com todo o valor mítico que amedronta e que, por aqui, chamamos “verdade”. Nele ela mora e por ele ela se manifesta. A verdade existe e mora com o presente, com quem tem uma longa e estável relação afetuosa.

O presente fascina porque ele não pára. A relação da passagem do tempo por ele é muito mais deslumbrante. O presente representado pelo escorrer da areia no estrangulamento da ampulheta é a melhor das metáforas porque reconstrói o sentido desta aceleração contínua do tempo – num instante o grão está acima do funil e no instante seguinte compõe o punhado de areia, como prova de um acontecimento.

No decorrer de sua existência o homem desenvolveu maneiras diversas de prorrogar, recriar ou reviver preciosos momentos preenchidos por situações que nunca se repetem ad fidem. As diversas vertentes artísticas surgem como perpetuação dessas experiências. Por este motivo guardamos fotografias, pinturas, gravações ou mesmo músicas como representações do passado, que, no entanto, recriam as sensações e o contexto do presente – daquele presente – possibilitando não apenas tal “deslocamento” a fim de reaver determinada situação e sensações, como também ter a possibilidade de fazê-la repetidas vezes e em qualquer tempo ou espaço.

O presente dura menos que um pensamento, mas é sempre verdadeiro.

Daniel Lopes

h1

"FUTURO" – Desconstrução

setembro 5, 2007

O futuro não existe e ponto. O que existe é um conjunto de regras, raciocínios, desejos e crenças que nos levam a construí-lo. Claro, que muitas vezes tais cálculos se perdem, se confundem ou simplesmente se enganam, mas a verdade é que a constante dedução barata do que está por vir, acaba por fomentar ainda mais sua existência. Criar o desenrolar de algumas ações, rascunhar determinadas reações ou vislumbrar possibilidades é projetar atitudes e construir o tempo em um tempo que não existe.

Não se pode contar com o que ainda não se concretizou. A concretização, no caso, é a realização, isto é, seu nascimento. Por uma questão cronológica, tudo se inicia na precipitação ao tempo de nosso raciocínio, o que chamamos futuro, se desenvolve e se concretiza durante a realização do seu momento, o que chamamos presente, e se finda e se fundamenta na perpetuação de sua existência, o que chamamos passado.

Todas as nossas atitudes, no entanto, são voltadas ao futuro. Mesmo quando pensamos em não de deixar de fazer algo, é esperando o alcance de um objetivo, mas mesmo assim buscar alcançar um objetivo é nos precipitarmos ao tempo; algo que ainda não é. Este “ainda não é” está no futuro; é o futuro, mas é também, para nós, a prévia concretização até que, por fim, se realize e satisfaça nosso desejo; a falsa idealização de sua existência.

Portanto, pensar no futuro, não é uma atividade exclusiva dos religiosos, mas a maneira como o religioso encara esta metáfora o difere de um descrente. Em suma, o princípio religioso atina para decisões em prol de uma conduta digna para que só após essa submissão possa gozar de sua correta postura. Em outras palavras, somados todos os atos, desenha-se o perfil espiritual e este será seu cartão de apresentação a cada uma das divindades creditadas nas diversas vertentes religiosas.

O futuro é e sempre será obscuro até ao mais relapso ou otimista dos seres humanos. Sua “não-existência” o torna ainda mais intrigante e polêmico, a ponto de conduzir-nos a cartomantes e outros leitores de destinos quando sozinhos não somos capazes de alcança-lo.

O futuro só passa a existir quando deixa de ser futuro.

Daniel Lopes

h1

"ARTE EM CHOQUE" – Desconstrução

abril 17, 2007

Em 1935 o filósofo Alemão Walter Benjamin (1892 – 1940) no ensaio A Obra de Arte na Era da Reprodutibilidade Técnica, levantou uma discussão acerca das novas técnicas de reprodução artística. Segundo Benjamin, o advento do cinema e da fotografia não apenas abrangiam todas as formas de arte conhecidas até então, como também se inseriam como novas manifestações artísticas. Tais manifestações, no entanto, colocavam em choque valores antigos de contemplação da unicidade existente nas obras de arte.

DISSOLUÇÃO DA AURA

A reprodução do que se entendia por arte, materializada pela fotografia e pelo cinema, não mais permitiu a distinção da arte autêntica e sua cópia. A reprodução também influenciou no acesso da massa às obras. O que antes era bem restrito tornou-se amplo e dissipado. O cinema e a fotografia quebraram a barreira do espaço-tempo. Assim, o caráter de unicidade da obra tradicional foi diretamente afetado, desconstruindo, desta forma, a noção de aura, existente na contemplação artística. Isso porque a apreciação de uma obra envolve o modo de sentir e perceber e tais sentidos se formulam pelo caráter único e estritamente localizado de uma obra. Com a quebra do espaço-tempo, uma vez que sua reprodução podia se dar em qualquer lugar, o que não acontecia com a original no museu, e quando quisesse, pois a reprodução era ilimitada, o cinema, em especial, adquire uma significação social inédita possibilitando que a massa entre em contato com a arte, elemento tradicional da herança cultural.

EXIBIÇÃO E PERSONAGENS

A nova arte, no entanto, exige uma nova leitura. A mediação do aparato técnico e a massa representada pela lente da câmera são responsáveis pela captura e restrição do que se entende útil ao contexto. Desta forma, mesmo o ator tem sua atividade diretamente afetada, uma vez que sua atuação não permite, como em outras manifestações, um envolvimento participativo e interativo a exemplo do teatro e sua imediação. À frente de uma equipe técnica especializada a performance do ator é muito mais em cima de sua própria personalidade; performance de si mesmo. Por este motivo o desempenho do ator de cinema e muito mais desprovido de aura tal qual personagens interpretados por ele.

MONTAGEM E EDIÇÃO

Walter Benjamim, cita ainda, que é na montagem que o processo criativo do cinema se mostra ainda mais criativo. Por intermédio da alteração da percepção e apreciação da estética a montagem cinematográfica faz emergir choques audiovisuais entre planos e cenas. Sendo assim, a concentração e contemplação exigida pelas obras de artes tradicionais, deformam-se no cinema, que utiliza a conjugação de imagens à indução de um raciocínio. Logo, a apreciação da arte no cinema é distraída, uma vez que a associação de idéias é interrompida tanto pela velocidade do filme quanto pela edição de cenas inseridas no contexto desejado. O cinema não se faz só com os olhos e sua recepção apenas visual. O cinema, esta inovadora arte, é tátil e engloba os sentidos como um todo.

Daniel Lopes

h1

"NOVO ANO; VIDA NOVA?" – Descontrução

dezembro 29, 2006

Finda 2006. Mas antes precisamos repensar o que fizemos de nossa, e em nossa, vida neste último ciclo. Somos dependentes do tempo e pontuados por ele. Mas o que o tempo muda em nossas ações e reações? Um novo ciclo do tempo gera um novo ser? Nos tornamos outra pessoa só por que agora estamos em 2007? A cada fim de ciclo, juramos, prometemos, criamos novos rumos e… no fim de tudo, repetimos tudo que fizemos no último. Somos os mesmos. Mudamos planos, mas pensamos a vida da mesma forma. Nos armamos de mandingas, simpatias e promessas, mas a concepção de nossas ações não muda. Não por ocasião de um novo ciclo. Somos os mesmos, sofrendo mutações a cada instante, a cada experiência vivida, a cada cena observada, a cada interação com o próximo. O tempo não pontua nossas mudanças, mas nossas mudanças que pontuam um novo tempo. Temos em cada um de nós, ciclos que não terminam em trinta e um de dezembro e nem mesmo possuem a mesma duração.

Em nosso tempo, nossa interpretação dos fatos é subjetiva. Depende muito mais do que apenas querermos algo e de tal forma. Podemos gerar planos, mas mesmo que quiséssemos agir de determinada forma, boa parte de nossas reações aos fatos acontece num plano superior ao raciocínio consciente. Está construído pelas nossas experiências adquiridas ao longo da vida por instituições como família, educação, educação religiosa, comunidade e, principalmente, sociedade. Portanto mesmo se quiséssemos mudar, junto com a passagem do ano, seríamos incapazes.

Dom – este raciocínio nos remete a ele. Desde pequeno cresci ouvindo que minha aptidão a arte do desenho, era um dom. Dom. O que é isso? Seria uma dádiva divina? Um favorecimento de Deus a mim? Ou um detrimento do Pai aos demais? Ao repensar minha trajetória me vi horas, debruçado sobre uma folha de papel, segurando um lápis reproduzindo figuras de meu agrado. O que chamavam dom, por mim, chamei dedicação. Dom, era pra mim, gostar de desenhos e a prática, constante e contínua, fez de mim perito. Se acaso, hoje, sem nunca ter tido qualquer experiência com o fato, pegasse um lápis e reproduzisse a Monalisa, talvez não escrevesse este parágrafo.

“Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha que considerar
Pensando bem, pode mesmo chegar a se arrepender
E pode ser que seja tarde demais. Vai saber”.
(Vai Saber? – Marisa Monte)

É assim por toda vida. Nada surge, tudo se desenvolve. Ao menos no que se refere aos seres humanos. Somos os criadores da vida em sociedade e hoje é ela quem nos cria; nos constrói. Somos totalmente manipulados por tendências e modas. Não apenas no vestir, como no usar, no falar, no sentir. Nosso tempo é o tempo que ela nos atinge; da maneira que nos atinge, com a intensidade que nos atinge. Não queira mudar o mundo ou mesmo a si próprio. Pense como pode entender melhor como funciona este mecanismo. Ele é grande e complexo demais pra nós. Os planos ainda existem não os desperdice. Use-os da maneira correta e serás vitorioso. Boa sorte e feliz ano novo.

Daniel Lopes

h1

"MEDO" – Desconstrução

dezembro 10, 2006

Você sente medo? Do que você tem medo? Qual o seu maior medo? Ter medo assusta? Por que ter medo?

Talvez o medo seja mais importante do que possamos imaginar. Até a dor é necessária a sobrevivência humana. É ela que comunica ao nosso cérebro que determinada parte do corpo pode estar em perigo. Dor é um alerta. Dor não é castigo. Dor é uma dádiva tal como o medo. E tal como dádiva, o medo, tem uma importante função: originar nossas ações. Talvez não seja tão fácil imaginar toda esta relevância a um sentimento que nem sempre se mostra perceptível ou que, de uma certa maneira, nos assusta.

O medo está sempre presente. Medo não é apenas aquela sensação de insegurança, frio na barriga ou tremer de perna. Medo é a possibilidade da perda quando, entende-se, evitável. Se a dor da perda pode não existir, por que deixar que ela aconteça? Desta forma, tomamos decisões, a todo instante, com o objetivo de evitar a perda. A cada movimento, a cada decisão, mesmo subconscientemente, buscamos situações e ocasiões que possam gerar algum tipo de prazer, mesmo que seja apenas o evitar perder algo que seja importante. Mesmo que uma decisão seja buscando, não a perda, mas sim, a vitória, o lucro, o medo está presente na forma de possibilidade da não aquisição de tal vantagem.

Uma maneira fácil de entender como o medo age no homem é observarmos uma criança. Logo, podemos concluir que quanto mais nova e inexperiente é a criança, menos medos esta possui. Não é difícil imaginarmos porque. Só temos medo depois que tomamos conhecimento das ações e reações. Sendo assim, viver é adquirir medos. Ainda no exemplo de uma criança, a primeira manifestação de medo ocorre ainda muito cedo. Uma criança, logo após seu nascimento, tem uma experiência, de certa forma, traumática. Ela é afastada daquela pessoa que esteve consigo ao longo de nove longos meses. A criança perde o sentido de orientação, prazer e proteção e entende que este sentimento não lhe proporciona, e sim deixa de lhe proporcionar, prazer. A criança, então, entende que não quer passar por aquela situação novamente. Nasce o medo. Com medo que determinada situação possa se repetir, a criança chora com o intuito de chamar a atenção e não se mostrar satisfeita com um possível novo afastamento materno.

Ter medo não é vergonhoso. Todos o temos. Ter medo é ter algo a perder; algo a ganhar. É ter escolha. Mas medo não é tudo. Medo não nos passa, por exemplo, a certeza da escolha certa, ou seja, aquela escolha correta a ser tomada para evitar algo que seja indesejado. Saber escolher ou tomar decisões certas é a grande “sacada” da vida. Medo gera possibilidades. Medo e possibilidades geram interesses. Medo, possibilidades e interesses geram objetivos. Medo, possibilidade, interesses e objetivos geram ações. Medo é a constatação do raciocínio do Homem. Somente o ser humano argumenta tão bem com este incômodo sentimento. Medo é vida.

Daniel Lopes

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.