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"MUNDO PUBLICITÁRIO" – Celofane

Março 18, 2007

Tempo é dinheiro.

Uma das profissões que mais lida com esta relação é a publicidade. Aliás, publicidade é simplesmente a força motriz de movimentação do atual mundo capitalista. Diga-se de passagem, talvez seja o mercado que mais evoluiu nos últimos 20 anos. Com o advento de novas tecnologias, o mercado publicitário se cobrou novos rumos e cada vez mais informatizado e inserido no consenso das sociedades contemporâneas, os limites para o publicitário simplesmente ruíram.

Quem não é visto, não é lembrado.

Na atual sociedade, vulgar se tornou sinônimo de boa qualidade. Sabendo disso o publicitário soube bem utilizar esta arma em seu benefício. A publicidade redescobriu o funcionamento do mercado, provou que ser conhecido representa maior procura, maior procura representa valorização, valorização representa lucro e tudo se tem início na divulgação da marca. Quantas vezes você já desistiu de comprar algo só porque nunca ouviu falar?

Imagem é tudo.

Novas tecnologias possibilitaram não apenas o desenvolvimento de melhores peças publicitárias, bem como melhorias nos principais veículos de exploração da imagem, que atualmente respondem por televisão, rádio (imagem no sentido metafísico) e a cada vez mais forte internet. A sociedade contemporânea cobrou, também, maior responsabilidade, por parte do segundo setor, em questões sócio-ambientais. Rapidamente publicitários e assessores buscaram conciliar a imagem de seus clientes a tais questões, gerando fomento a organizações não-governamentais e investimentos em projetos e campanhas de utilidade pública.

Onde todos ganham.

O mercado tem dinheiro e quer ser conhecido para ganhar mais dinheiro; o publicitário tem a técnica e quer tornar seu cliente mais conhecido para ganhar dinheiro; a TV tem o espaço e quer ser mais conhecida para proporcionar às empresas a serem mais conhecidas para ganhar dinheiro. Todos querem dinheiro; seu dinheiro. Você quer consumir; eles querem seu consumo. Então você dobra sua carga de trabalho para ter mais dinheiro para aumentar seu consumo para gerar mais carga neste motor. Eis o mundo capitalista.

Em tempo.

Logo que as partidas de futebol foram inseridas na programação das emissoras de TV, anunciantes perceberam a excelente oportunidade de divulgação de imagem. Logo o espaço de placas publicitárias nas laterais dos campos se tornou pequeno, então empresas, buscando expor suas logos, e clubes, buscando finanças, juntaram-se para que suas imagens fossem familiarizadas do público consumidor em potencial. Mas o mercado de divulgação queria mais. Sendo assim, entraram em contato com as emissoras para que, durante a transmissão, fossem exibidos anúncios nos cantos da tela. Era pouco. Os placares foram aumentados possibilitando um espaço destinado, exclusivamente, a propagandas comerciais animadas. Ainda era pouco. Então perceberam a ótima oportunidade de deitar anúncios no campo, na parte externa ao lado das balizas, desta forma não apenas suas imagens seriam divulgadas durante os jogos, com também após, durante re-exibições dos gols em telejornais. Mas claro, era pouco. Então algumas emissoras, por intermédio de animações gráficas, imputaram postes e outros chamativos publicitários artificialmente nos gramados. São belíssimos, mas a criatividade é o que realmente impressiona.

Enfim, atualmente outro membro fora inserido aos portadores de anúncios comercias: “seu” juiz. Pois é. O árbitro da partida, já há algum tempo, ostenta em suas costas anúncios comerciais maiores até que os dos próprios atletas. Avaliando por este ponto de vista, penso que futuramente nossos os jogadores e juízes usarão calças e camisas compridas, possibilitando maior espaço as peças publicitárias. Mas acho que a grande sacada vai ser na bola. Em breve – acreditem! – somente uma fina camada, transparente e externa girará, sendo assim uma outra camada interna com logos empresariais ficará sempre nunca mesma posição por mais que a bola gire. Um golaço do time dos publicitários. Sem dúvida, verdadeiros campeões.

Daniel Lopes

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"DONOS DO PEDAÇO" – Celofane

Janeiro 29, 2007

A noite carioca chegou a um ponto, no mínimo, curioso. Noite, mas poderia tranqüilamente citar qualquer período do dia de uma pessoa que esteja transitando pelas ruas da cidade maravilhosa. Engraçado seria, se trágico não fosse. Já foi a época que nossa única preocupação era pegar um caminho menos perigoso, mais iluminado ou, até mesmo, o mais rápido. Por outro lado, tais preocupações não necessariamente encontram-se extintas. Apenas um outro preocupante fator ganhou destaque. Hoje carioca tem medo é de “flanelinha”.

Engano pensar que houve redução nos índices de criminalidade. Ela apenas mudou de cara, nome e atende de forma quase lícita, pois a idéia já está tão incorporada que a atividade não sugere qualquer tipo de fiscalização. Ela simplesmente existe e ponto.

O raciocínio e, no mínimo, interessante: você se desloca ao local desejado, observa um ponto de parada de seu interesse e direciona seu veículo. O local não sugere qualquer sinal de propriedade particular. Desde que respeitadas as normas de trânsito, você como cidadão tem o direito de utilização daquele espaço. Eis que surge, então, alguém que indica o local exato onde você deve estacionar, como, exatamente, o carro você deve deixar e, principalmente, quanto, significativamente, você deve pagar. Tal taxa representa a realização da atividade de guarda de seu patrimônio em seu benefício. Olha que lindo! Pena que a denominação do termo “imposto” nunca tenha sido tão bem representada.

Tudo bem, o espaço é público, você faz parte do “público”, mas “lamento amigo, a área é minha, eu vi primeiro”. É isso mesmo. Ele é o “dono do pedaço”. Você não está pagando a proteção do seu carro contra bandidos, e sim contra o próprio que diz estar guardando seu patrimônio. Bom, neste caso ele também responde pela denominação “bandido”, mas “flanelinha” é seu codinome, uma clara referência as primeiras manifestações da atividade, quando os homens que a executavam carregavam consigo flanelas que utilizavam para sinalizar o trânsito e lustrar o veículo enquanto o “seu dono não vem”. A flanela, quase que totalmente, desapareceu junto com os homens de bem. Ainda, em poucos lugares, encontramos legítimos “flanelinhas”. Deve ser mais fácil encontrar um mico-leão dourado em compras de Natal no Saara.

Avisar não custa: jamais tente enganar um deles. Estão sempre lidando com pessoas que tentam se esquivar de seus serviços. Em outras palavras, são muito mais espertos que você. Os donos do pedaço movimentam um negócio de dar inveja a muitos micro-empresários e o não-pagamento de seus préstimos pode gerar arranhões métricos no seu veículo. Não invente! Se você não quer pagar, não pare! Vá procurar outro lugar. Porque aquele tem dono… e ele cobra o aluguel.

Daniel Lopes

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"HOJE EU ACORDEI" – Celofane

Janeiro 13, 2007

Hoje eu acordei ateu.

Faz pelo menos 10 horas que estou dormindo, acordo e ainda é noite. Ela é mais longa hoje. Triste. Toma-me um falso sentimento de culpa. Matei Deus e seus soldados. Sento-me à cama. Quero não acreditar, mas meus pensamentos lógicos estão misturados em cada uma das sensações que passo. Não me soltam. Não me deixam. Rendo-me contra minha vontade. Contra minha esperança. Deus não existe hoje pra mim. O que faço? Como posso viver assim? Cercam-me os que crêem. Culpam-me os que crêem. Não tenho a intenção. Sou vítima de meus cálculos matemáticos. São certos. Não restam dúvidas. O Big-Bang faz muito mais sentido que Adão e Eva ou a cobra e a maçã. Feliz os tolos que acreditam. Vivem felizes os dias de amanhã. Dias que não vêem amanhã. Amanhã que não existe pra mim… infelizmente. Sou pequeno. Sou nada. Não existia antes de nascer, não vou existir depois de morrer. É simples, trágico e muito, muito doloroso. Meus heróis não morreram de overdose. Morreram loucos. Como poucos. Por isso foram heróis idolatrados por pessoas que ainda existem e cegamente não acreditam no que eles diziam. Mas eu acredito, hoje, para o meu completo desespero. Sabiamente alguém escreveu, o que outrora se tornou parte do livro sagrado, que a maçã traria o conhecimento que detinha o Pai e por isso tal proibição. O amargo gosto desta fruta desfruto agora. Torno-me aos poucos tão grande quanto Deus a ponto de não enxerga-lo. De não compreende-lo. De não escuta-lo. Uma pena. Queria que hoje não existisse, como não vou mais existir um dia. Queria não ter estes heróis. Queria apenas idolatra-los como o rebanho dos que neles não acreditam. Queria ser cego, surdo e mudo pra reduzir a quase nada minhas vontades, apenas seguir o fluxo e viver pra sempre.

Hoje eu acordei

Virei-me na cama e avistei um Homem à margem dela. Não via Seu rosto. Sua expressão. Via em Seus lentos movimentos, o cuidado de quem me faz um bem. Não falo. Não responde. Nosso diálogo não sugere palavras, mas gestos. Ele não precisa delas. Estranho como o dia clareou rápido e junto com ele, minhas esperanças. Meus olhos estão alegres e molhados. Sinto cada parte de meu corpo por centímetro de vitalidade. São unidades de medidas conhecidas por homens do rebanho, e por mim, apenas hoje. Não perdi tempo antes de conhecer este Senhor, mas ganhei o tempo que daqui virá. Não me levanto. Não me sento. Estou mais que confortável. Estou vivo. Nasci hoje. Não calculo mais. Meu Pai não criou números. Criou homens. O Homem à beira da cama se afasta e logo entendo que precisa visitar outros homens que dormem. Existem poucos que não acordam, mas muitos estão sonolentos. Sono lento que leva 10 horas e não desperta o dia que com luz clareia o caminho. Hoje ganho novos heróis. Antigos, agora os idolatro não acreditando em seus brilhantes retalhos. São homens, criativos como só e vítimas de seus cálculos construídos por números não criados pelo Pai, como si próprio. O Homem se foi em corpo, mas o dia claro, fresco e pacífico me traz uma boa sensação de que ele volta quando eu precisar, no momento que eu precisar, sem palavras ou números, pra mostrar que Ele sempre existiu e eu, a partir de hoje ou apenas hoje, vou existir pra sempre

e… vice-versa.

Daniel Lopes

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"NOVO ANO; VIDA NOVA?" – Descontrução

Dezembro 29, 2006

Finda 2006. Mas antes precisamos repensar o que fizemos de nossa, e em nossa, vida neste último ciclo. Somos dependentes do tempo e pontuados por ele. Mas o que o tempo muda em nossas ações e reações? Um novo ciclo do tempo gera um novo ser? Nos tornamos outra pessoa só por que agora estamos em 2007? A cada fim de ciclo, juramos, prometemos, criamos novos rumos e… no fim de tudo, repetimos tudo que fizemos no último. Somos os mesmos. Mudamos planos, mas pensamos a vida da mesma forma. Nos armamos de mandingas, simpatias e promessas, mas a concepção de nossas ações não muda. Não por ocasião de um novo ciclo. Somos os mesmos, sofrendo mutações a cada instante, a cada experiência vivida, a cada cena observada, a cada interação com o próximo. O tempo não pontua nossas mudanças, mas nossas mudanças que pontuam um novo tempo. Temos em cada um de nós, ciclos que não terminam em trinta e um de dezembro e nem mesmo possuem a mesma duração.

Em nosso tempo, nossa interpretação dos fatos é subjetiva. Depende muito mais do que apenas querermos algo e de tal forma. Podemos gerar planos, mas mesmo que quiséssemos agir de determinada forma, boa parte de nossas reações aos fatos acontece num plano superior ao raciocínio consciente. Está construído pelas nossas experiências adquiridas ao longo da vida por instituições como família, educação, educação religiosa, comunidade e, principalmente, sociedade. Portanto mesmo se quiséssemos mudar, junto com a passagem do ano, seríamos incapazes.

Dom – este raciocínio nos remete a ele. Desde pequeno cresci ouvindo que minha aptidão a arte do desenho, era um dom. Dom. O que é isso? Seria uma dádiva divina? Um favorecimento de Deus a mim? Ou um detrimento do Pai aos demais? Ao repensar minha trajetória me vi horas, debruçado sobre uma folha de papel, segurando um lápis reproduzindo figuras de meu agrado. O que chamavam dom, por mim, chamei dedicação. Dom, era pra mim, gostar de desenhos e a prática, constante e contínua, fez de mim perito. Se acaso, hoje, sem nunca ter tido qualquer experiência com o fato, pegasse um lápis e reproduzisse a Monalisa, talvez não escrevesse este parágrafo.

“Só porque disse que de mim não pode gostar
Não quer dizer que não tenha que considerar
Pensando bem, pode mesmo chegar a se arrepender
E pode ser que seja tarde demais. Vai saber”.
(Vai Saber? – Marisa Monte)

É assim por toda vida. Nada surge, tudo se desenvolve. Ao menos no que se refere aos seres humanos. Somos os criadores da vida em sociedade e hoje é ela quem nos cria; nos constrói. Somos totalmente manipulados por tendências e modas. Não apenas no vestir, como no usar, no falar, no sentir. Nosso tempo é o tempo que ela nos atinge; da maneira que nos atinge, com a intensidade que nos atinge. Não queira mudar o mundo ou mesmo a si próprio. Pense como pode entender melhor como funciona este mecanismo. Ele é grande e complexo demais pra nós. Os planos ainda existem não os desperdice. Use-os da maneira correta e serás vitorioso. Boa sorte e feliz ano novo.

Daniel Lopes

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"MEDO" – Desconstrução

Dezembro 10, 2006

Você sente medo? Do que você tem medo? Qual o seu maior medo? Ter medo assusta? Por que ter medo?

Talvez o medo seja mais importante do que possamos imaginar. Até a dor é necessária a sobrevivência humana. É ela que comunica ao nosso cérebro que determinada parte do corpo pode estar em perigo. Dor é um alerta. Dor não é castigo. Dor é uma dádiva tal como o medo. E tal como dádiva, o medo, tem uma importante função: originar nossas ações. Talvez não seja tão fácil imaginar toda esta relevância a um sentimento que nem sempre se mostra perceptível ou que, de uma certa maneira, nos assusta.

O medo está sempre presente. Medo não é apenas aquela sensação de insegurança, frio na barriga ou tremer de perna. Medo é a possibilidade da perda quando, entende-se, evitável. Se a dor da perda pode não existir, por que deixar que ela aconteça? Desta forma, tomamos decisões, a todo instante, com o objetivo de evitar a perda. A cada movimento, a cada decisão, mesmo subconscientemente, buscamos situações e ocasiões que possam gerar algum tipo de prazer, mesmo que seja apenas o evitar perder algo que seja importante. Mesmo que uma decisão seja buscando, não a perda, mas sim, a vitória, o lucro, o medo está presente na forma de possibilidade da não aquisição de tal vantagem.

Uma maneira fácil de entender como o medo age no homem é observarmos uma criança. Logo, podemos concluir que quanto mais nova e inexperiente é a criança, menos medos esta possui. Não é difícil imaginarmos porque. Só temos medo depois que tomamos conhecimento das ações e reações. Sendo assim, viver é adquirir medos. Ainda no exemplo de uma criança, a primeira manifestação de medo ocorre ainda muito cedo. Uma criança, logo após seu nascimento, tem uma experiência, de certa forma, traumática. Ela é afastada daquela pessoa que esteve consigo ao longo de nove longos meses. A criança perde o sentido de orientação, prazer e proteção e entende que este sentimento não lhe proporciona, e sim deixa de lhe proporcionar, prazer. A criança, então, entende que não quer passar por aquela situação novamente. Nasce o medo. Com medo que determinada situação possa se repetir, a criança chora com o intuito de chamar a atenção e não se mostrar satisfeita com um possível novo afastamento materno.

Ter medo não é vergonhoso. Todos o temos. Ter medo é ter algo a perder; algo a ganhar. É ter escolha. Mas medo não é tudo. Medo não nos passa, por exemplo, a certeza da escolha certa, ou seja, aquela escolha correta a ser tomada para evitar algo que seja indesejado. Saber escolher ou tomar decisões certas é a grande “sacada” da vida. Medo gera possibilidades. Medo e possibilidades geram interesses. Medo, possibilidades e interesses geram objetivos. Medo, possibilidade, interesses e objetivos geram ações. Medo é a constatação do raciocínio do Homem. Somente o ser humano argumenta tão bem com este incômodo sentimento. Medo é vida.

Daniel Lopes

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"O DIA ‘D’ QUEM?" – Celofane

Novembro 21, 2006

A década de 90 se tornou um marco no que se refere ao ensino acadêmico nacional. Foi nela que ocorreu a transposição de um sério problema que acercavam jovens na faixa entre 15 e 20 anos: a difícil escolha da profissão a ser seguida. O peso dos vestibulares era a “grande batalha” a ser encarada por aqueles que reuniam condições para tal. O problema se mostrava tão verdadeiro que o sofrimento precedia pelo menos três anos a data prevista. Ainda no início do, atualmente chamado, ensino médio, estudantes se amontoavam em atividades extras com o intuito de se apresentar em melhores condições que outros, então, futuros candidatos. Os cursos pré-vestibulares arrecadavam fortunas.

O problema não foi exatamente resolvido. Foi transferido. Mais especificamente para 4 anos mais tarde. Obviamente muita gente se viu prejudicada. No final da década de 90 ocorreu um “boom” das instituições de ensino superior particulares fomentado, no passado, pelo Governo Federal que, justamente com tal propósito, permitia a designação de filantrópica a empresas que surgiam com este fim. Desta forma, estas empresas gastavam menos com impostos, mais com publicidade e a procura era cada vez maior.

De início não ocasionava perigo às elites, uma vez que ainda se respeitava a formação em universidades públicas. Mas o mercado mudou bastante. Até por conta da absorção, por parte das universidades particulares, de alunos que reuniam condições de passar nos vestibulares e, no entanto, não foram felizes. Outro fator responsável foi a difícil condição do ensino em universidades públicas. Aulas passaram a ser substituídas por longos períodos de greves de professores que buscavam melhores salários. Como um dominó em queda, um problema foi gerando outro. Tais professores encontraram na iniciativa privada os salários dignos que procuravam – e não encontravam – no serviço público. Assim sendo, o quadro das universidades particulares foi deveras enriquecido.

Passou-se então a jorrar mãos-de-obra. “Rios” de gente formada e habilitada passaram a ser postas a disposição do mercado de trabalho todos os anos. Famílias gozaram de suas primeiras gerações de formados, passando – a priori – um saudável sentimento de dignidade. Logo, a estrutura educacional brasileira seria bruscamente alterada. O trabalho passou a ser fonte de meios necessários para se continuar sonhando. A elite perdeu valiosas fatias do “bolo” e o nepotismo – palavra da moda – surge como plano “B” e logo ganha status de “A” como salvação das classes mais favorecidas. No entanto, conforme dito anteriormente, os vestibulares perderam parte de sua importância e, por excelência, o peso da escolha profissional deixou de ser no início para ser ao final da formação, quando, enfim, é chegada a hora de encarar a máquina mercado congestionada de gente.

O que devo fazer? Qual o caminho que devo seguir? Que vertente profissional devo escolher? Devo tentar outros campos? Devo fazer pequenos serviços? E se eu abrisse uma empresa? Qual o meu diferencial? Tantas perguntas acabam por deixar duras seqüelas. Hoje muitos jovens encaram esta fase de incertezas e sentem-se perdidos. Não sabem o que fazer e muitos nada fazem. Apenas arquivam seus diplomas e seguem em profissões que em nada condizem com sua formação. E o pior: talentos são desperdiçados por conta do nepotismo ou porque simplesmente não tiveram oportunidades de mostrar seu trabalho; seu potencial. Um estranho medo surge: o medo de deixar de ser criança e tornar-se responsável, no principal sentido do termo – responder por. O que antes era brincadeira, quando não ignorado, agora é coisa séria. O capitalismo é devorador e não terá pena de ninguém. A contemporânea forma de aprisionamento é o endividamento no cartão de crédito e o jovem já inicia sua vida preso.

Não raro, o interesse particular está acima de qualquer outro. O que você acha que motiva formações de quadrilhas corruptas? Nada se faz se não houver um “incentivo” como Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner sugerem no livro “Freakonomics”. Deixa-se inclusive o que há de melhor para o conjunto e pega-se o que há de melhor para si. Desta forma, seguimos em frente lamentando problemas sérios estruturais de políticas básicas. Lamentamos o caos que se encontra a segurança, saúde e educação públicas e não sabemos onde erramos. Cada um de nós é responsável por tomar decisões que influenciam uma ou mais vidas a cada novo questionamento. É importante que estas decisões sejam avaliadas com seriedade e por quem tem competência. E competência e seriedade não se aprendem na faculdade.

Daniel Lopes

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"OS TRÊS FAZERES" – Celofane

Novembro 10, 2006

O texto em questão surge de uma adaptação sofrida por um conhecido dito popular. Tudo na vida é passageiro. Certo? Errado! Quantas vezes já ouvimos esta frase? Muitas, com certeza. Mas não podemos esquecer do “trocador” e do “motorista”. O que parece engraçado é na verdade um assunto sério e não damos conta de sua importância que se apresenta nos dias atuais e em cada um de nós.

A verdade é que, estamos condicionados a nos confortar com nossas pequenas conquistas. É claro que toda conquista deve ser comemorada, mas, ao contrário do que realmente acontece, esta deve servir de incentivo a uma próxima.

Quando utilizamos a expressão “tudo na vida é passageiro”, não estamos apenas impondo limites aos maus momentos os quais passamos. A vida não é composta apenas de momentos ruins. Os bons também se fazem presentes e o cruzamento destes extremos é o que, por fim, chamamos de vida. Logo, afirmar que tudo está, em todo momento, mudando é aceitar a posição – que lhe parece imposta e cômoda – de passageiro.

Tornar-se um passageiro, é mais que pontuar o fim. É também estar passivo aos acontecimentos. O “trocador” e o “motorista” não são passageiros, porque estão em ação. Pensando nas situações prováveis ou não, eles que estão sempre em movimento. Logo, os exemplos a serem seguidos.

Levando em consideração o ônibus como a representação do mercado, podemos melhor visualizar as figuras do passageiro, do trocador e do motorista. O primeiro não exerce qualquer tipo de ação que não seja a de entrar no mercado/ônibus, além do que seu ingresso possui uma validade previamente estipulada – o ponto onde irá descer. O trocador, ao contrário do que faz o passageiro – ou deixa de fazer – exerce alguma função. Esta, no entanto, não chega a ser de extrema significância, mas é necessária para que o mercado/ônibus funcione bem. Já o motorista é a figura de suma importância. É ele que faz com que o mercado realize o seu principal objetivo – o deslocamento! No entanto, o melhor da função de motorista é ter sob seu comando não só o direcionamento que lhe for mais cômodo como também a velocidade que lhe for mais segura. Não é difícil de entender, então, quem possui a principal função. Isso, obviamente, requer uma maior atenção e responsabilidade, mas se você não estiver disposto a tais funções, não reclame mais tarde, dos ônibus lotados.

Por fim, tal expressão não deve ser abolida. Ela deve continuar existindo, entretanto, com um sentido positivo. Ela deve servir de motivação. Algumas pessoas a utilizam como forma de coerção, intimidação e até mesmo com um tom ameaçador. Cá entre nós, existe coisa mais importante na vida que desejar, pura e simplesmente, a queda de outro. Existem coisas boas e realmente importantes para nos preocuparmos com a nossa. Corra atrás, procure-as, encontre-as e fale: tudo na vida é passageiro, mas eu sou o motorista.

Daniel Lopes

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"O QUARTO PODER?" – Eleições2006

Outubro 30, 2006

As diferentes faces da mídia sempre foram pautas para longos discursos sociais e acadêmicos. No entanto, mesmo sendo exacerbadamente estudado, o poder midiático ainda é muito recente e sua prática não está apenas relacionada ao domínio de suas funções somado a novas técnicas, como também está diretamente associada à evolução tecnológica. Desta forma, não se faz gênio os que, por hora, tentam rascunhar o tamanho “poder” que está em jogo. Entretanto, mensurar seu universo talvez não seja a questão mais importante. Por exemplo. Tente imaginar quem o controla e como este controle se dá. Três poderes instituem a estrutura sine qua non de uma nação democrática. São eles: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Três forças motoras, fracionadas em diferentes atuações, que por intermédio de suas atividades proporcionam o funcionar da grande máquina denominada Estado. Cada um dos três poderes possui uma atuação independente o que sugere autonomia de suas ações, no entanto, esta se faz necessária para que, dentro de suas competências, um possa fiscalizar a prática do outro. Mas quem controla a ação da mídia?

À época em que falar de mídia significava falar apenas de TV e rádio, tal questão talvez não fosse gerar tanto raciocínio. Isto porque o governo detém e controla, através do Ministério das Comunicações, o que pode ou não e deve ou não ser exibido nestes meios, sujeito à punição por perda parcial ou total do direito de utilização de tal espaço. No entanto, hoje o assunto é muito mais complicado. Um extensivo e democrático mercado se apresentou ao mundo na última década. A rede mundial de computadores, internet, passou a fazer parte do dia-a-dia de cada cidadão ao ponto que não ter um correio eletrônico é quase que não possuir uma identidade, mesmo que esta seja virtual. Nos dias atuais, o vulgo e-mail é o principal contato solicitado no que se refere a transações em atividades profissionais ou particulares, justamente por substituir documentos burocráticos e possibilitar uma consulta ao tempo que o usuário desejar. Desta forma a facilidade, velocidade e eficácia da “Word Wide Web” tornaram-na uma das principais “armas” da sociedade, já sendo considerada por alguns como também veículo de massa, outrora, denominação destinada apenas à rádio e TV. Denominação questionável.

Outra polêmica acerca de denominações que se referem ao universo comunicativo também se faz presente. Esta diz respeito à força e importância da mídia de uma forma geral. Algumas vertentes filosóficas consideram e chamam a mídia de “quarto poder”. Clara referência aos outros três poderes supracitados. Tais estudiosos consideram que a mídia também tem atuação independente e fiscalizadora dos demais, além de considera-la também parte da estrutura básica do Estado. Desta forma, tal denominação estaria devidamente fundamentada. Outra vertente, no entanto, vai além. Considera e chama a mídia de “poder moderador”. Esta denominação, que fora imposta anteriormente ao Executivo, pode sugerir uma falsa idéia de que o detentor desta atue como articulador dos demais poderes. Um pensamento pequeno frente ao real significado. A idéia da moderação se refere ao sentido de sobrepor-se aos demais poderes, pressionando-os em busca de soluções para benefícios, ditos, sociais, utilizando para isto, a exposição em massa dos que não se comprometem. Um rascunho da dita prática hierárquica, ou sociedade atual, em que a elite não se submete as normas estipuladas por lei. Outros estudos, porém, apontam a mídia como um “não-poder“, ou simplesmente um veículo empresarial em busca de interesses próprios.

Por fim, alguns conceitos devem ser somados. A mídia age, sim, fora da lei, o que acaba por gerar dois conflitos. A sociedade cria dependência nas atividades da mídia em busca de soluções, que por conseqüência se beneficia desta dependência. No entanto, a atuação da mídia tem grande importância no mundo atual e hoje é a grande responsável pela manutenção dos valores democráticos, tornando visíveis fatos que possam causar prejuízos ao bom funcionamento das instituições que compõe o poder público.

Nota
A série Eleições2006 chega ao fim com Luiz Inácio Lula da Silva eleito, novamente, Presidente da República Federativa do Brasil. Na condição de brasileiro perseverante encerro esta série desejando que o Brasil, que amanhã se inicia, consiga reorganizar suas idéias, estipular prioridades, criar políticas de combate a crimes contra a nação e sua gente e, principalmente, caminhe de cabeça erguida em busca de dias melhores. Parabéns Brasil.

Daniel Lopes

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"OS TRÊS PODERES" – Eleições2006

Outubro 22, 2006

A palavra poder nunca foi tão bem definida. Desde o início de toda a confusão envolvendo governo, bases e oposições, as atenções estiveram sempre direcionadas ao Legislativo e, cada vez mais, ao Executivo. No entanto, estamos esquecendo – ou sendo induzidos a esquecer – a decisiva atuação do poder Judiciário, que se mostra o personagem não principal, mas coadjuvante desta dramaturgia. Como todo bom romance, o atual também se constitui da estrutura básica. Tendo em vista o papel principal ser sempre o “mocinho”, podemos dizer que o povo fica com essa parte. Daí pra “bandido”, só há dúvidas quanto ao líder da quadrilha. Nesse caso devemos refletir e esperar até o último capítulo pra determinar-nos quem fica com este papel, Executivo ou Legislativo, que cá entre nós, se confundem a toda hora. Já o papel coadjuvante também já está determinado. É aquele que muitas vezes está do lado do bem e, de repente, aparece do lado do mal. Aquele que os escritores deixam como “curingas”, ou guardados na manga, para uma eventual surpresa. Definitivamente, um personagem que o “mocinho” nunca pode confiar. Mas sempre confia. Oh, “mocinho” bobo – qualquer semelhança como o povo, não é mera coincidência!

Se existe alguma dúvida de quem exerce esse papel na trama, sugiro uma re-leitura dos capítulos – ou leitura, para os que procuram não assistir essa novela. Com o início do que poderia ser o fim do mistério envolvendo “mocinho” e “bandido”, a CPI, o Judiciário vem tomando decisões que, em sua maioria, parecem dificultar ainda mais a solução do caso, quando o seu papel deveria ser exatamente o contrário (lembra a história do “curinga”?). O coadjuvante aos poucos mostra a sua cara.

Um indivíduo que rouba milhões dos cofres públicos, ou que negocia aquilo que deveria ser o principal veículo de atuação de uma democracia – o voto – ou que vende seus critérios em prol de recursos financeiros, tem direito a manter-se calado? Tem direito a ter seu nome poupado de divulgação frente à opinião publica? Ou deveria pagar pelos crimes que cometeu? Honestamente, avaliando o estranho desenrolar desta novela, temo que a trama não tenha fim, que fiquemos reféns desta programação, a exemplo das séries de TV que roubam nossa atenção e nos enganam com pequenos capítulos independentes, os quais nos satisfazem, mas, no entanto, nos impedem de saber a exata verdade – o verdadeiro fim – o último. Nada contra a TV e sim contra a passividade do verbo “assistir”.

Sendo assim só nos resta concluir que, durante todo esse tempo em que o “mocinho” achou que o coadjuvante estivesse do seu lado, ele estava realmente “atuando” e contribuindo para que essas pessoas permanecessem impunes concedendo-lhes hábeas corpus, direito ao silêncio e impedindo que seus nomes fossem divulgados. O Judiciário se mostra a cada dia mais um membro desse grupo. Uma vez em que vivemos em uma democracia e o bem da democracia é o bem de seu povo, o Poder Judiciário tem o dever, tal qual o Executivo e o Legislativo, de operar em benefício dele, fazendo-se visível aos olhos de todos, os crimes que atingem a integridade da nação e o progresso do país. Outrossim, sendo este o poder que fiscaliza o exato cumprimento do conjunto de normas que constitui uma nação, a lei, sua irresponsabilidade é ainda mais inaceitável.

Daniel Lopes

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"TPE – TENSÃO PRÉ-ELEITORAL" – Eleições2006.

Outubro 2, 2006

Se finda a última e, por excelência, mais conturbada semana para a política antes da “urna”. A semana eleitoral. Claro, ao menos no que se refere ao primeiro turno. Sabe-se que ao tempo que alguns terão sorte, outros terão que passar novamente por todo o transtorno que precede o pleito. Eleições nacionais e estaduais vão caminhando para o “dia D”. Muito “se falou” nessas últimas 72 horas, por conta dos debates que encharcaram de informação os eleitores em potencial, na verdade, muito também se enrolou, se desconversou e, principalmente e definitivamente, se ocultou. Nada de mais brasileiro, não é mesmo?

Em semana de debates na TV, destaque especial para o carioca exibido no último dia 27, pela emissora líder do mercado. Em plano, grandes nomes…do passado: a ex-juiza; o ex-militante; o ex-bispo; o ex-jornalista e o ex…bom, um deles não é “ex” de nada. Talvez porque nunca tenha sido nada, ou tenha sido eternamente candidato a alguma coisa…inclusive a advogado. No comando, o nosso “Christopher Reeve depois do tombo”, que vez por outra se viu na obrigação de utilizar todo o jogo de cintura – que não tem – para fazer valer a máxima de que não é permitida manifestação partidária dos presentes. Resultado: bagunça.

Embora com os contra-tempos supracitados, o debate se mostrou bem interessante, no que se refere a particularidades, a começar pelo líder das pesquisas, candidato Sérgio Cabral, que num estilo quase “robótico”, buscou – sem sucesso – esquivar-se dos “petardos” arremessados por inimigos políticos. Estilo figurinha PSDB, Eduardo Paes demonstrou grande conhecimento teórico, o que pareceu ter feito bom dever de casa, apesar da aplicação dos conceitos gerar alguma polêmica. Denise Frossard, bem ao estilo promotora, deu as mãos ao candidato petista em busca do detrimento a popularidade de Cabral, numa relação de amor e ódio explícitos, embora Vladimir Palmeira tentasse, vez por outra, ocultar o romance. O Candidato do PT, aliás, bem ao estilo “fanfarrão”, foi o dono do show e muitas vezes seu silêncio feria mais que suas palavras. Quem mais sofreu com seu ataque, foi o mediador. Nunca foi fácil segurar um militante político. Segurar, por outro lado, é termo inexistente no dicionário do candidato Marcelo Crivella. Sem qualquer reação física ou variação do tom de voz, Crivella seguiu o debate, como sempre, como se estivesse em uma entrevista. Havia horas que parecia não ouvir a pergunta feita e respondia em forma de discurso pronto. Boa tática. O debate carioca gerou boas risadas, embora o assunto seja de extrema importância.

Um tom a cima do plano estadual e da conduta “esportiva”, dia 29, foi vez do “tão esperado debate dos presidenciáveis”. Willian Bonner, que dispensa comentários, conduziu o confronto. Em foco, duas esquerdas e uma direita, se é que ainda podemos pontuar pólos no Brasil. O Candidato do PDT, Cristóvão Buarque, em sua marcha lenta, esbanjou simpatia e não se desprendeu do lema “revolução pela educação”. Entre homens, uma mulher. Heloísa Helena, grande referência do universo feminino nos últimos anos, fez questão de lembrar a “I-rreeeeeesssssponsabilidade” política dos últimos três mandatos, juntando num mesmo poço petistas e peessedebistas. Por falar em PSDB, é impressionante como o partido “tucano” fabrica homens “em série”. Mais uma figurinha num universo composto de “Cardosos”, “Serras”, Geraldo Alckmin, bem como Eduardo Paes, candidato a governador no Rio, seguem o estereótipo do partido. Alckmin apresentou, também ao estilo do partido, uma linha muito mais voltada ao lado econômico, ao contrário dos outros presentes voltados muito mais ao lado humanitário da campanha. O ex-governador de São Paulo lembrou seus feitos como chefe do estado paulista. Alckmin lembrou, ainda, que o Brasil “p’ssatê” uma boa política econômica e “p’ssatê” consciência de redução dos impostos. Falar em “presentes”, no entanto, faz-nos lembrar de “ausentes”. Talvez a maior decepção do governo “estrelado”. Seu candidato, símbolo de luta e militância, fugiu do combate. O candidato Luis Inácio Lula da Silva faltou ao compromisso que deveria ser divisor de águas em sua campanha. Não há dúvidas que o Brasil acordou mais decepcionado. Agora, o Brasil “p’ssatê” consciência e não faltar com sua “rrrrrrrrreeeeeeessssssssponsabilidade” para alcançar a tão esperada revolução… quem sabe pela “educação”?

Daniel Lopes